Quem se incomoda com os emos?
Claro que como muitas pessoas eu não topo muito com o “modo de vida emo”. Não vejo problema nenhum em ver o mundo como uma merda, ou sofrer por amor (o que é romanticamente bonito), mas a impressão que eu tenho, não só dos emos, mas de todas as tribos fantasiadas, é que um bando de pirralhos de classe média chorando com a barriga cheia. Quando eu era criança não simpatizava muito com os punks – ironicamente na adolescência iria começar a curtir punk rock e na faculdade em diante eu sempre me dei com os punks em geral, principalmente aqueles que lêem bastante. Não sou anarquista, mas simpatizo com a teoria, e sempre gosto de discutir política e suas doutrinas. Em suma, pra ser meu amigo, não precisa concordar comigo, basta ser inteligente. Conheci punks inteligentes. Alguns idiotas, é claro, mas isso existem em tudo que é tribo.
Mas o problema, na escola, é que a turma punk era um bando de filhinhos de papai de classe média, que achava que anarquismo era simplesmente “destruição”. Achavam que a ideologia estava mais no barulho da música do que nas letras. Sem falar na importância que davam no jeito de se vestir. Em geral, eu sempre desprezei essas “tendências” estilísticas.
Os punks, os metaleiros, os góticos, até o grunge. E olha que eu, em vários aspectos sou quase da geração grunge, era adolescente no finalzinho dela e gostava (gosto) bastante da música de Seattle. Mas esses “uniformes” sempre me soaram como uma eliminação da personalidade própria do individuo, uma massificação coletivista. Eu nunca liguei pro jeito que me vesti, e me achava “especial” na minha individualidade.
Somente quando os anos 90 acabaram, que eu pude enxergar as coisas com clareza. Bom, Hobsbawn avisou que você tem que deixar sua época passar pra analisar com objetividade. O fato de eu nunca ter feito parte de tribos não era tão especial: toda a minha geração pensa assim. O que a geração dos 90 tem em comum é o individualismo, e essa é uma das razões que não conseguimos produzir nenhum momento intelectual-cultural que preste. O próprio grunge mesmo morreu na casca, porque era tiro pra tudo que é lado. O grunge tinha uma ordem estética parecida com a tropicália, algo que não podia durar por muito tempo, justamente porque, musicalmente falando, pregava a miscigenação de qualquer gênero de rock, acabando com aquela briga ridícula entre punk e heavy metal. A turma de Seattle gostava tanto de Ramones quanto de Black Sabbath, era influenciada tanto pelo Neil Young quanto pelo Kiss. Já o jeito de se vestir, que aqui era coisa de loja, bom, lá a camisa xadrez é roupa de “pobre” mesmo, a flanela um tecido de pobre apropriado para o frio. A “moda grunge” apenas reflete o jeito que o povão se veste, alguma dúvida olhe o figurino da série “My Name is Earl”. Os protagonistas não são grunges, eles são caipirões típicos americanos. É daquele jeito “sujo” (grunge) que o povão se veste mesmo. Em suma, o grunge já trazia essa ruptura com a idéia de tribo, seja na roupa, seja na música, ou até mesmo as posturas ideológicas conflitantes. O niilismo do Kurt Cobain não tem nada a ver com a música engajada pós-beatles do Eddie Vedder (Pearl Jam).
Assim, como muitos dos meus pares dos anos 90, eu “gostava de tudo”, e me achava o máximo por ouvir Ramones e Engenheiros do Hawaii. Mas o fato é que a gente, mesmo quando não percebe, geralmente acaba seguindo o resto da manada, afinal somos influenciados por várias “forças ocultas” – mídia, sociedade, professores, família e, claro, nossos amigos que são os “retransmissores”. Um comportamento realmente “único” é tarefa praticamente impossível dentro dessas forças sociais, que tem seu sucesso garantido justamente por não se fazerem sentir, nem parecerem opressivas. Quando você acredita que existe liberdade, não questiona o tipo de liberdade que se tem.
Por isso, acho engraçado o tamanho do ódio que galera “anti-emo” dedica a essas pobres crianças tristes de cabelos lambidos e roupas pretas. Quer dizer, quem eles estão incomodando? Pode não parecer, mas do seu jeito bizarro, eles estão se divertindo, como os hippies faziam, como os mods, os metaleiros, os punks, os góticos, os grunges, os clubers, enfim, toda e qualquer tribo se organiza. A palavra tribo é bem apropriada: você se identifica com essas pessoas, se veste como elas para expressar sua afinidade, você se sente protegido nessa célula social. De repente, você não está sozinho no universo: mais gente pensa como você.
Sentimento de rebanho? Como eu disse antes, erroneamente pensava assim nos anos 90, com toda a minha “identidade única e pessoal”, mas agora sei que isso não existe. Todo mundo está numa tribo, todo mundo. E o que mais prova isso é justamente o ódio contra os emos: afinal as tribos odeiam umas as outras por questões ideológicas, é fato. Se você odeia os emos é porque sua visão de mundo é bem diferente da deles, de certa forma, o comportamento deles te ofende e te empurra pra vontade de esganá-los e humilhá-los sempre que puder.
Toda tribo, em que época apareça, é uma reação a uma situação histórico-social. Você pega os hippies nos anos 60, onde tem uma nação (os EUA) voltada para a guerra, um mundo dividido pelo confronto da guerra fria, e toda a opção encurralada na escolha ideológica entre injustiça (EUA) e opressão (URSS). Os hippies negam essas alternativas, porque acreditam que elas não podem ser as únicas do mundo. Como a sociedade americana acredita que ganhar dinheiro é o objetivo máximo da vida, os hippies começam com negar esses valores.
Os mods ingleses já é o tipo de caso de “gangues de meninos brancos”. Toda hora seus pais e avós ficam falando que ganharam uma guerra, que o mundo que vocês herdaram é por causa do sangue deles. O saco cheio desses garotos se manifestou neles quererem suas próprias batalhas, e a violência como canal para valorização e busca por identidade.
O metaleiro é uma espécie de hippie domesticado. Ele aceita o sistema – seja capitalista ou “socialista”, caso não saibam, havia metaleiros e bandas de metal até na extinta URSS! São jovens que querem se divertir, sua música procura uma fuga da realidade que tem que encarar no seu emprego normal. Por isso fala de tantos seres místicos ou sagas do passado, ou se baseia em coisas impessoais como a literatura. Os primeiros metaleiros eram ex-hippies, gente que decidiu “aderir ao sistema”, como o Led Zeppelin. Se você pegar uma banda como o Iron Maiden aquilo é mais uma empresa do que uma banda de rock propriamente dita. Os cabelos compridos, as vestimentas e os gritos rebeldes estão mais como um produto a se vender do que algo autêntico propriamente dito.
A reação a isso foi o movimento punk no fim dos anos 70. Essa turma queria a realidade nas letras das suas músicas, uma música que não fosse sofisticada, mas violenta, selvagem e popular. O espírito do “faça você mesmo”, ninguém precisa saber tocar um instrumento pra fazer música. Se expressar, livremente, era a máxima. Os punks, ao contrário dos hippies, não acreditam na paz e amor, eles não são tão traumatizados com a guerra quanto seus pais. Eles acreditam no confronto, na revolução social, como forma de promoção da mudança.
Já na década de 80, o movimento mais importante foi dos góticos, vindos da ressaca punk. Admitindo que não dá pra mudar o mundo, eles esperam o apocalipse inevitável. Não a toa a geração dos anos 80 foi chamada de “a geração vazia”, uma geração esmagada pelo peso da profunda relevância cultural dos anos 60 e 70, sendo constantemente comparada aos seus predecessores. O próprio desenvolvimento da industria cultural meio que tirou a relevância dessas tribos, com o comportamento não sendo mais que uma estratégia de marketing pra vender disco. No final dos anos 80 você tinha como maior expoente uma banda artificial como Guns & Roses, fazendo um “metal de arena” básico e ultra-comercial. A “rebeldia” mais do que nunca engarrafada e a disposição no supermercado.
O grunge meio que foi um grito niilista contra esse estado de coisas, contra a padronização. Você é um musico de heavy metal ou punk rock? Que se foda. De repente não dava pra rotular aquele tipo de música que era um meio termo, e assim rotularam de grunge. O Nirvana e o Alice in Chains também acreditavam, como os góticos, que o mundo estava pra acabar, mas de um jeito cínico e debochado, o característico “não estou nem aí”, que foi a nossa máxima dos anos 90 (virou até refrão de música no Brasil).
Então qual é a dessa turma emo? É uma reação, como todas as outras tribos foram. Nós vivemos numa sociedade que impõe um conjunto de valores “vencedores”. Você tem que vencer, você tem que crescer, você tem que sorrir, tudo dá certo no final, ame quem te ama, se divirta com a galera, estude, trabalhe, case, reproduza, morra, todas as doutrinas alternativas ao sistema capitalista se provaram equivocadas, não há alternativa, o mundo sempre será assim para sempre e sempre, amém e bla bla bla.
A admissão que não dá pra mudar o mundo – pregada na escola, em casa, na televisão, nos cultos evangélicos – tem como máxima a indiferença absoluta do ser humano. Não podemos amar o próximo, temos que desconfiar do próximo, afinal todo mundo só quer vencer. A pessoa que te ama? Tenha certeza, ela vai te trair, dizem os filmes e programas na TV. Aquela criança de rua? Ela vai te roubar. Aquele mendigo? Está te enganando. Aqueles idealistas? Estão te usando.
Em suma, a nossa tribo, a tribo geral, daqueles que não usam “uniforme”, nem fantasia, é a tribo dos indiferentes, dos que sentem apenas desejos de consumo incentivados pela publicidade. Essas crianças, por isso mesmo, se acham “emotivas”, porque não aceitam ser indiferentes. Eles querem sentir. Sentir ao máximo. Elas acreditam, como Vinicius de Moraes dizia, “que o amor só é bom se doer”. É uma filosofia que vem desde o romantismo do século XVIII e volta e meia reaparece. Um modo pessimista de ver a vida? Talvez, mas no pessimismo está uma aceitação da realidade que os que se conformam com o consumismo como máxima de vida jamais vão entender.
Por isso tanto ódio. Os emos, com suas bizarrices e cabelo ridículo, no cantinho deles, parecem estar apontando o dedo pra gente e dizendo: vocês não são gente, são máquinas. Vocês não sentem, não se importam. Vocês não tem alma, mas um buraco negro no lugar. E claro que nos sentimos incomodados, e temos que dar uma porrada nesses moleques.
Não que a solução seja sermos todos emos ou emotivos. Eles são uma reação radical ao sentimento de indiferença que toma a humanidade. Toda tribo é radical e exagerada. Todas elas. Os hippies com seu libertarismo irresponsável, os metaleiros alienados, os punks violentos, os góticos suicidas, os grunges drogados e esses emos com essa choradeira sem fim. Mas mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes por dia. Por isso eu tenho simpatia por todos eles, inclusive os emos, e pela gente, a nossa imensa, iludida e quase unânime tribo dos individualistas.
Estamos certos e eles errados ou o contrário? Eu não sei. Só sei que não vou me incomodar com algum jovem emo vivendo a vida do jeito que bem entender, assim como eu vivo a minha do meu jeito, e ninguém têm nada a ver com isso. Quem se incomoda tanto com o vizinho é porque tem algo faltando no seu quintal, e você deve arrumar as coisas em casa antes de ir procurar confusão na rua, é o que eu acho.











