Domingo, Maio 01, 2011

Uma releitura das Viagens de Gulliver

Ano passado a editora Cia das Letras – a minha preferida – lançou uma coleção em parceria com a famosa empresa norte-americana, a Penguin Books, conhecida como a maior editora de clássicos do mundo.

Em suma, o selo Penguin vai abrigar os livros clássicos lançados pela Companhia doravante. Eles vem com o mesmo design da editora americana e vários “extras” como prefácios, introdução, notas, posfácios, ilustrações, etc.

Se constitui, assim, numa excelente desculpa para quem, como eu, gosta de reler livros. Resolvi começar pelas Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, que eu havia lido quando muito jovem. Além de uma nova tradução, me atraiu o prefácio de George Orwell (autor de 1984 e A revolução dos Bichos), e o estudo de texto do editor norte-americano Robert DeMaria Jr.

Ironicamente, decepcionei com o prefácio de Orwell, que me pareceu pendante, ao gastar mais de 50 páginas para criticar o autor e o livro só para terminar dizendo que era um dos seus preferidos, num exercício de orgulhosa magnanimidade do tipo “a maior prova que eu sou democrático é que eu adoro o que discordo”. Acredito que o grande problema de Orwell com Swift é que no fundo o autor de 1984 era um otimista. Bem diferente de Swift, que criou essa obra prima da amargura e da sátira.

Pra quem ficou surpreso com essa minha afirmação, então nunca deve ter lido as Viagens de Gulliver, tendo como lembrança apenas os filmes ou as adaptações literários infanto-juvenis sobre as aventuras de um naufrago numa ilha de cidadãos em miniaturas. Chega a ser irônico –embora não surpreendente – que uma das afirmações de Swift, de que o ser humano transforma geralmente o que é sábio em algo superficial acabe se realizando com o livro dele. Isso se deve a uma leitura errada da saga de Gulliver, prestando mais atenção na fantasia do que na mensagem por trás dela.

As Viagens de Gulliver é uma sátira, gênero literário hoje em desuso, mas ainda com alguma força no cinema – onde evidentemente se contenta em produzir bobagens descerebradas. Literariamente falando, a sátira é um instrumento onde se faz uma crítica – ou críticas – a um estado de coisas – ou pessoas – de forma travestida, ou seja, como se aquilo fosse uma ficção, uma fantasia. O gênero é muito usado por autores que viviam sobre o jugo de sistemas autoritários, onde o livre pensamento poderia ser condenado com a prisão e com a morte. Então se dava um jeito de falar a verdade escrevendo histórias alegadamente “fictícias”, mas que para os mais perspicazes trariam uma mensagem sobre a vida real.

Jonathan Swift era um irlandês numa época em que a Irlanda vivia sobre jugo da Inglaterra, uma monarquia que mesmo no início do seu sistema parlamentar ainda continha muito autoritarismo e violência para os seus críticos. Ele ganhou fama escrevendo diversos panfletos criticando questões políticas pontuais da época, no entanto, só escreveu algo de fôlego – e capaz de superar o seu tempo – com as Viagens de Gulliver. Se trata de um supra-sumo onde o amargurado autor ataca a sociedade inglesa da época, o governo, os políticos, as religiões e deixando seu ataque final para a própria raça humana em si.

Ele usa o expediente do viajante que visita países e povos fantásticos para usá-los como paralelo aos ingleses, ou então na comparação, para mostrar como os europeus eram mais atrasados e ignorantes do que se supunham.

O livro é dividido em quatro partes. Na primeira, ele visita Lilipute, e geralmente as adaptações param somente neste ponto, pela “graça” dos pequenos habitantes de doze centímetros onde Gulliver é um gigante. O motivo da guerra de Lilipute com seus vizinhos sempre é interpretado como simplesmente engraçado – principalmente pelo telespectador das adaptações cinematográficas, que sempre tem um viés infantil – mas por trás da alegoria de onde se deve quebrar um ovo, está justamente uma sátira muito bem montada para criticar e rir das polêmicas entre protestantes e católicos, em guerra nos séculos XVI e XVII.

O valor de fazer uma releitura, agora sabendo melhor sobre a história da Inglaterra e França, torna muito mais claro que Lilipute e seu vizinho são na verdade esses dois países. Swift retrata os cidadãos em miniatura para que o leitor (primariamente inglês) reflita como os povos podem ser mais pequenos do que imaginam. De fato, o rei de lilipute se declara o “maior e mais poderoso homem do universo”, mas não passa de uma criaturinha que Gulliver poderia esmagar com uma das mãos.

Na segunda parte do livro, o quadro se inverte, e agora Gulliver é que a pessoa em miniatura em uma terra de gigantes. Essa alegoria novamente é pra deixar ainda mais claro como os ingleses são pequenos, pra quem não entendeu a mensagem na primeira parte. Porque o povo gigante, ao contrario dos liliputianos, tem muito mais virtude e razão, e acham ridículas as querelas dos povos pequenos conforme Gulliver lhes relata a vida na Europa.

Na terceira parte, o viajante visita pelo menos três países, pequenas ilhas próximas entre si, no Oceano Pacífico. Em Laputa, Swift faz uma sátira para a afetação da ciência sem objetivos, do pensar pelo pensar; Na ilha de Glubbdidrib, Gulliver tem oportunidade de encontrar com fantasmas de grandes figuras históricas, e assim especular o quanto conhecemos da História oficial é verdadeiro ou não – essa passagem aliás é uma crítica aos historiadores da época, que louvavam os poderosos, e com seus registros mudavam a verdade dos fatos; Em Luggnag, o viajante se defronta com a maldição daqueles que continuam vivendo mesmo quando isso significa uma vida eterna prolongada cheia de sofrimentos e doenças.

Por fim, temos a quarta parte, aquela que Orwell entra no senso comum dizer que é a “pior”, e meu grande motivo de contestação, porque para mim é justamente a melhor parte do livro. Vocês nunca verão a quarta parte adaptada na televisão, em filmes ou livros infantis. Porque a quarta parte é um ataque a raça humana.

Muito antes de Charles Darwin ter sequer nascido, Swift já admite que o ser humano é um animal, como qualquer outro, e para aqueles que acreditam que se diferencia por ser “racional”, ele se dedica aqui a desmistificar essa opinião. O viajante Gulliver vai parar num país aonde os papéis de senhor e besta estão invertidos: Os seres mais sábios são uma raça descendente dos cavalos, os houyhnhnms,enquanto os humanos não passam de yahoos, a mais suja e abjeta raça de animais que já habitou a terra.

Enquanto os cavalos são puros e superiores no seu modo de vida, jamais se invejando, brigando, competindo ou mesmo mentindo – conceitos que nem mesmo existem nos vocabulários deles - os vícios dos “yahoos” mostram um bando de animais sujos que não sabem se controlar sexualmente; acreditam em crendices sem explicação; respondem sempre aos sentimentos e instintos mais baixos; não conseguem se contentar com o que tem e não tem o menor espírito de solidariedade; pelo contrário, comumente se atacam entre si, e por nada.

Gulliver tenta provar aos houyhnhnms que não é um Yahoo, mas a medida que conta a história e o modo de vida dos brancos europeus, vai ficando mais claro para os sábios cavalos que os humanos e os yahoos são a mesma espécie. Que pior, os humanos usaram a pouca inteligência extra que tem em relação aos símios para aperfeiçoar as formas de roubar, machucar e matar seus semelhantes – e na concepção de Swift, não existem ladrões mais eficientes, nem mais ávidos, ou assassinos mais cruéis, do que os governos e os juízes.

O autor não perdoa ninguém: governantes, juízes, advogados, jornalistas, religiosos, eleitores, todos, mas todos são colocados sobre uma lupa e friamente desnudados naquela ilha onde o ser humano se encontra sobre o seu estado animal. E assim a suposta evolução, ou o conceito de que o ser humano haveria de ser uma criatura “superior” criada sobre “forma divina”, cai por terra diante das evidências.

Evidências tão gritantes, que a quarta parte do livro é até hoje ignorada, ou então, quando um autor como Orwell tem que comentar sobre ela, faz o mais fácil e a crítica, como forma de fazer com que o leitor, ao ler esta passagem,a leia sobre os olhos dele, e não com os seus próprios. Então é patente como o prefacista não chama atenção para o fato de Swift criticar a colonização da América e denunciar os crimes ali praticados em nome das coroas, coisa raríssima na intelectualidade européia da época. Talvez porque Orwell acredite no fundo na missão “civilizatória” do homem branco europeu nas Américas – e na África – e portanto, os yahoos sejam uma incomoda opinião de que ao invés de civilizados e racionais, o ser humano não é tão superior quanto se pensa.

Sábado, Abril 23, 2011

Em busca do rock argentino

Algo que sempre me intrigou foi a ignorância dos brasileiros em relação aos seus vizinhos. Tipo, se você for a Inglaterra, descobrirá que eles sabem qual é a último moda em Paris. Na França os jornais destacam tudo que acontece na União Européia. Algo que faz sucesso na Bélgica, alcançará a França, Luxemburgo e Suíça.

Mesmo os Estados Unidos, conhecidos por sua arrogância umbiguista, estão cientes das culturas mexicanas e canadenses, principalmente graças a migração, é verdade, mas não vamos esquecer que muitos artistas populares como Neil Young e Celine Dion são do Canadá. E que o super-herói Wolverine, aliás, é canadense. Isso chega a ser irônico pra quem mora por lá, porque pros norte-americanos é como a Argentina pra nós: os estadunidenses contam piadas menosprezando seus vizinhos, e sempre se pretendem maiores e superiores.

Nós temos uma relação ainda mais complicada com a Argentina, principalmente graças a uma herança herdada da ditadura militar que nunca foi debatida seriamente em público. Nos anos 60 e 70, os militares brasileiros e argentinos entraram numas de querer “dominar o continente”. Ambos queriam ser o país que ditaria os rumos políticos da América do Sul, sobre as benções dos Estados Unidos.

Quando a Guerra das Malvinas estourou, por exemplo, ao invés de ficarmos do lado da Argentina, nossos milicos e a mídia brazuca deram opinião favorável a Inglaterra. A imprensa, aliás, ajudou muito nesse ideário de ódio aos argentinos, aproveitando a nossa rivalidade futebolística. Ao contrário do que todo mundo pensa, não foi desde sempre que Brasil e Argentina foram grandes rivais no futebol. Até os anos 60, nosso “arqui-inimigo” era o Uruguai.

Mas nos anos 70 o futebol uruguaio foi perdendo força e o Argentino crescendo. Então los hermanos começaram a ganhar partidas em cima da seleção canarinho, o que desperta, é claro, sempre um tipo de rancor. Pra piorar, nos 24 terríveis anos em que o Brasil ficou sem ganhar uma Copa do Mundo (1970-1994) tivemos que engolir dois títulos mundiais da Argentina (1978 e 1986).

O mais engraçado de tudo é que o ressentimento não é tão recíproco. Nós do litoral sabemos: todos os anos milhares de argentinos vem para nossas praias, porque adoram passar o verão no Brasil. Ocasião em que podemos conhecê-los e inclusive sanar uma série de preconceitos, como por exemplo o mito de que são arrogantes. Os americanos falam a mesma coisa dos canadenses, aliás. Isso acontece porque até poucos anos atrás, os argentinos eram o povo da América do Sul com maior inserção no ensino superior. Ou seja, uma porcentagem maior da população tinha acesso as universidades, e não por acaso, a Argentina era o país que mais consumia livros também. Sim, os argentinos eram mais cultos que nós, e isso não é suposição, isso é estatística. E é normal todo cara culto ser confundido com arrogante – eu particularmente vivo na pele esse preconceito, por isso entendo muito bem os argentinos.

Um exemplo da cultura dos argentinos é o seguinte: eles adoram música brasileira. E não estou falando da Xuxa e dos Paralamas do Sucesso. Nomes como Tom Jobim e Caetano Veloso são amados por aquelas bandas. Agora, eu me pergunto, o que sabemos da música argentina? Nada, nadica de nada. E antes que o brasileiro ufanista estufe o peito e diga que se o argentino escuta música brasileira nas rádios deles, é nos não escutamos música argentina por aqui, é porque nossa música de fato é melhor.

Em primeiro lugar, não é uma questão de comparar graus de excelência. Vamos estabelecer que a música brasileira realmente é melhor, para evitar polêmicas. Ainda assim, você acha que o pior da música brasileira é melhor do que o que melhor da música argentina? Daí já é fanatismo. Os argentinos tem muita música legal e dos mais diferentes gêneros capazes de agradar qualquer um. E se há brasileiros melhores, ainda assim, esses argentinos são melhores do que muita coisa deplorável que anda aparecendo por aqui – as recentes bandas de rock-emo, por exemplo.

Meu primeiro contato com a música argentina foi através do Paralamas do Sucesso – grupo de considerável sucesso na Argentina, aliás. Em contato com a “cena” hermana, os Paralamas passaram a ouvir e reproduzir o som de lá também. Isso se configurou em versões em português de hits da música pop argentina, como Trac-Trac (de Fito Paez), Lourinha Bombril (de los pericos), De Musica Ligera (do Soda Stereo) e Vienes 3m (do Seru Giran).

Outro grupo que me apresentou o rock argentino foram os gaúchos do Nenhum de Nós. O Rio Grande do Sul faz fronteira com o país portenho, e por isso é normal você encontrar bastante discos de música argentinas nas lojas de lá. No oeste de estado, se você tiver um bom rádio sintoniza as estações argentinas, aliás. A banda gravou versões em português de Polaroid de La Locura Estraordinaria (Fito Paez) e Rezo por vos (Seru Giran).

Esse tal de Fito Paez

Assim, eu já tinha ouvido falar de Fito Paez, quando ele fez um extraordinário show no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2002. Lá estava eu, no meio de uma multidão de brasileiros, argentinos, chilenos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, peruanos e outros povos da América Latina. A maioria dos meus amigos não sabia quem era Fito, mas a partir do momento em que o som começou, ficou claro que se nós brasileiros estávamos por fora, o resto da América do Sul não. O resto do MERCOSUL pulava alopradamente a cada hit. Eles sabiam de cor cada letra. Estava claro que Fito, não só no seu país, era um astro. Devo dizer que até hoje há apenas dois shows que me impressionaram de verdade, justamente por serem feitos por músicos que eu pouco conhecia: Fito Paez e Pedro Luís e a parede (este tive a oportunidade de ver no Rio, um ano antes). Quando você não conhece nenhuma música, e ainda assim o som te impressiona, acho que estamos diante de provas incontestáveis de qualidade.

Mal cheguei a Florianópolis, comprei “Rey Sol”, meu primeiro disco do Fito. Hoje sei que é considerado um álbum menor dele, mas por um bom tempo escutava direto. As letras eram muito fortes e realmente queriam dizer algo, ao contrário do cenário da música brasileira naquele início do século XXI, que começava a se tornar cada vez mais estéril. A seguir na minha lista de compras vieram ABRE PAEZ (o disco mais político de Fito) e EUFORIA, uma espécie de acústico com releituras de sucessos do cantor.

Se alguém quiser começar a ouvir Fito Paez, eu recomendaria EUFORIA, aliás. É um disco fácil, acessível, melodioso e que apresenta um panorama da obra dele, com algumas das minhas músicas preferidas, como Ciudad de Los Pobres Corazones, Cadaver Exquisito, 11 y 6, Tumbas de La Gloria e Mariposa Tecknicolor. Outro disco excelente pra começar a ouvir Fito é “El amor depues del amor”, álbum que até hoje é o disco mais vendido da história do rock argentino! Recentemente o Paralamas lançou uma versão da faixa título, que eu particularmente achei decepcionante, e que não tem metade da força do original (principalmente na questão da letra, que Herbert transformou em algo romântico e pessoal, e não romântico panfletário como é o texto original de Fito).

A discografia de Fito Paez é bem extensa, é claro que se você se torna fã acaba tendo ouvir todos – o que naturalmente acabei fazendo. O meu disco preferido acabou virando o Tecer Mundo, e não foi com surpresa que descobri que muitos fãs argentinos de Fito com minha opinião, apesar de não estar nem entre os álbuns que mais venderam, nem entrar na lista dos preferidos pela imprensa. É como o disco Legião Urbana V, que é o preferido de um verdadeiro “legionário”, apesar de ser ignorado tanto pela crítica como pelo “povão”. Algo que só os fãs arraigados entendem e apreciam.


SODA STEREO

O capítulo dois de nossa saga começa com uma música bem conhecida dos brasileiros: De Musica Ligera, que é mais conhecida por aqui como “A sua maneira”, a versão bastarda gravada pelo Capital Inicial e que estourou nas rádios certa época. Devo dizer que sempre achei a versão dos brazilienses travada (tirei essa expressão do Herbert Vianna, que achou a mesma coisa, eheh) e nunca fiz muita questão de ouvir.

Isso se deve porque anos antes, sem o mesmo impacto, os Paralamas já haviam feito uma versão no excelente álbum Nove Luas, e ao contrário da crença sobre quem é mais “rock’n roll”, pode parecer irônico, mas a versão dos Paralamas é mais pesada! E próxima do original, devo admitir, tanto nos arranjos, quanto nas letras.

De Musica Ligera é um dos maiores clássicos não só do rock argentino, mas do rock latino. Nos anos 80, enquanto nós vivíamos na santa ignorância de curtir senão as bandas brasileiras, apenas as bandas norte-americanas e inglesas, um grupo chamado SODA STEREO levava multidões para shows em estádios de futebol na Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia e por aí afora. Um trio de músicos virtuosos, o Soda Stereo assim como o Paralamas era muito influenciado pelo The Police, isso fica claro nos primeiros álbuns deles. No entanto, “De Musica Ligera”, é uma canção tardia, já do começo dos anos 90, muito influenciada pelo grunge, que despontava naquela época nos EUA.

Oficialmente o Soda Stereo se separou nos anos 90, com o guitarrista e vocalista Gustavo Cerati embarcando numa competente (mas não badalada) carreira solo. Ainda assim o grupo ainda se reúne de vez em sempre para gravar um álbum ao vivo e faturar umas verdinhas. E se Fito tem o disco mais vendido, na soma geral, o Soda ganha, como a banda que mais vende (até hoje) na Argentina, assim como a que tem o recorde de lotação nos shows. Assim como foi a que mais sucesso internacional teve até hoje.

A discografia da banda é menos extensa, com seis álbuns em estúdio, e vários ao vivo (do qual eu destaco “el ultimo concierto”, gravado em 1997, quando a banda anunciou sua separação, exatamente no auge e dá pra sentir a devoção dos fãs ao conjunto. Eu recomendaria, pra começar, a compilação em dois álbuns, “Chau Soda”, que traz as músicas mais conhecidas e importantes. Entre elas, De Musica Ligera, no seu esplendor e peso original. Fazem o Capital comer poeira!


CHARLY GARCIA

Quando eu ouvi “Rezo por vos” no disco “Paz & Amor” do Nenhum de Nós, sabia que precisa ir atrás de mais coisas desse tal “Charly Garcia”, que assinava a canção como compositor. Logo descobri que se tratava de uma música de um grupo chamado “Seru Giran”, que também teve a honra de ser o mais popular da Argentina no final dos anos 70 – o Soda Stereo seriam os seus sucessores, por assim dizer.

Charly Garcia é um multi-instrumentista, uma espécie de George Harrison da música portenha. Ele começou a chamar a atenção no ínicio dos anos 70, com uma banda pós-hippie chamada “Sui Generis”. Basicamente é som daquela época, e que proporcionaram hinos de toda uma geração de bichos-grilo, tal com o Raul Seixas fazia a mesma coisa aqui no Brasil. Charly se destaca principalmente no campo da invenção, tendo sido chamado de “O Frank Zappa portenho”, também por sua personalidade controversa, com arroubos de arrogância e excentricidade.

O Sui Generis gravou três discos, dos quais eu recomendo na verdade a coletânea “Antologia’, lançada em 1995. Se você gostar, então vá atrás dos álbuns originais. Vale lembrar que ao contrário dos roqueiros do Soda Stereo, o som da banda é bastante influenciado pela música popular argentina, e um dos méritos de Garcia é aprofundar esse sincretismo entre folclore (como eles chamam a música natal deles) e o pop-rock.

Graças a personalidade Garcia, o conjunto se dissolveu, e após um álbum solo sem muita repercussão (La Maquina de Hacer Pajaros), Charly se juntou a outros três renomados músicos argentinos, e assim criaram o SERU GIRAN. A repercussão da reunião inusitada foi tal que a mídia portenha os chamou de “Beatles argentinos” (aliás, não foi a primeira vez que a imprensa argentina comparava um dos seus aos Beatles, anos antes havia o Almendra, mas chego lá quando falar desta banda). Mas até aí a nossa imprensa dos anos 70 também chamou Os Doces Bárbaros de Beatles brasileiros, né?

O Seru Giran foi um sucesso de público e crítica, e produziu clássicos do rock argentino, como Seminare, Eiti Leda, Viernes 3 am, Noche de perros, Peperina, El La vereda del Sol e Cuanto Tiempo mas levara. A fase clássica do grupo teve apenas quatro álbuns, todos ótimos, elogiados e de sucesso. É o tipo de conjunto que vale a pena ir direto pra discografia propriamente dita, dispensando as coletâneas.

Com tantos compositores e ótimos músicos, é claro que os egos eram tão volumosos quanto o talento, e daí com as brigas constantes, essa banda dissolveu também. Mas ao contrário do sucesso restrito do Sui Generis, o Seru Giran foi um supergrupo, que colocou o nome de Charly em muito exposição, e providenciou que ele finalmente tivesse holofotes quando embarcou numa nova tentativa de carreira solo, agora com bastante êxito.

O sucesso não se deveu só devido ao apoio dos órfãos do Seru Giran, mas também pelos discos inspirados que lançou nos anos 80, vários deles cabendo em qualquer lista de melhores discos do rock argentino de todos os tempos.

É o caso de Yendo de La Cama al Living (1982), clics Modernos (83), Piano Bar (84), Parte de La religion (87) e Como conseguir Chicas (89). Mas o primeiro álbum de Charly que ouvi (antes mesmo de conhecer Seru Giran e Sui Generis) foi o acústico MTV lançado em 1995, um bom retrospecto da carreira dele, que mostra o quanto suas composições são melodiosas. Esse álbum traz clássicos como Cerca de La Revolucion (que ganhou uma votação no site rock.com. ar como o rock mais importante da história da Argentina, superando De Musica Ligera, do Soda Stereo), Rezo por Vos, Promesas sobre el bidet, No soy un extraño e a minha preferida, Los Dinosaurios.

Enfim, Charly Garcia é um nome essencial do rock argentino, na verdade, uma verdadeira entidade da música portenha. Até Mercedes Sosa que era grande amiga do músico, chegou a gravar um álbum junto com ele (Alta Fidelidad, 1997). Vários são os interpretes argentinos, tanto do rock quando da música folclórica que gravam e regravam músicas de Garcia, um dos compositores mais gravados daquele país.


LUIS ALBERTO SPINETTA

Na nossa saga em busca do rock argentino, é claro que inevitavelmente apareceria o nome de Luis Alberto Spinetta. A primeira vez que ouvi falar dele, já o ouvi logo de cara: Ele gravou em 1986 um disco em conjunto com Fito Paez, La La La, e como eu explorava a discografia de Fito, o encontro era inevitável.

Outra referência que o colocava na mira era de sua parceria com Charly Garcia na composição de Rezo por Vos, uma das minhas músicas preferidas do louco bicolor (e bipolar, dizem alguns). Então eu tinha que ouvir mais deste tal de Spinetta, já que segundo vários nomes da música argentina, Spinetta era a pedra fundamental do rock Hermano, um dos seus fundadores até.

E assim cheguei ao começo de tudo, do rock argentino propriamente dito. Três bandas são apontadas pela mídia especializada do país como responsáveis pela introdução e popularidade do rock na Argentina: Los Gatos, Manal e Almendra.

Los Gatos tem a mesma importância que a Jovem Guarda por aqui, um som “beat”, dançante, romântico e rockeiro. O Manal era uma banda mais pesada, comparado ao Cream, um trio que antes de tudo tocava blues, e chegou ao rock porque era moda. Mas o mais importante foi o Almendra, que chegaram a ser chamados de “Os Beatles portenhos” (eu não disse?) antes de qualquer outra banda por lá.

Por que eles eram os Beatles? Ok, se trata de um quarteto. Os quatro cantam, os quatro compõem. E mais importante, não há dúvida ao ouvir suas músicas que foram muito influenciados pelo quarteto de Liverpool.

O Almendra assim foi montado realmente até com uma ambição de ser os Beatles da Argentina! Isso não estava só na música, também nas letras, o Almendra trouxe um lirismo que não havia nem com Los Gatos ou com Manal. Eram acima de tudo CANÇÕES, aquele tipo de música pra ouvir, curtir e refletir, não apenas pular (e na maioria das vezes baladas que não estimulavam a isso mesmo). É sintomático que o maior hit do Almendra seja uma canção só com dois violões e voz, “Muchacha ojos de papel”, outro clássico indispensável da música argentina.

A minha preferida, aliás, é “Plegaria para um Nino Dormido”, uma balada roqueira com uma pitada de tango. Spinetta tem um grande renome na cena musical argentina justamente por buscar muito essa fusão da música popular argentina com o rock’n roll, principalmente com seu conjunto de “tango elétrico”, o Spinetta Jade, já nos anos 80.

Mas Luis Alberto Spinetta começou com o pé firme no rock, e o Almendra era uma banda roqueira, capaz de rapidamente conquistar não fãs, mas verdadeiros fiéis, que transformavam suas músicas em hinos para toda a vida. Infelizmente o sonho acabou ainda mais cedo para os quatro rapazes de Buenos Aires do que durou para o quarteto similar de Liverpool. Após cinco compactos (aqueles disquinhos com duas músicas, quem lembra deles? E dois álbuns, (o segundo duplo, aliás), o conjunto se dispersou, por causa, é claro dos conflitos de ego. É, a vida não deve ser fácil num conjunto onde todo mundo compõe e canta, e assim um quer sempre colocar mais música dos que os outros.

Mas a curta vida do Almendra foi suficiente pra virar lenda, e não por acaso seu disco de estréia "Almendra” está em 6º lugar numa lista feita pela Rolling Stone argentina, com “Os 100 melhores discos do rock argentino”. Almendra II, o disco duplo, está na 29ª posição. Aliás, sou muito grato a essa matéria da Rolling Stone, porque me serve de guia para ir atrás das coisas.

Ah, quer saber qual é o 1º lugar, o disco mais importante do rock argentino segundo a Rolling Stone? ARTAUD, de autoria dele mesmo, LUIS ALBERTO SPINETTA, o vocalista e guitarrista do Almendra. Quando o conjunto acabou, Spinetta logo formou uma nova banda, também mítica no rock Argentino: o Pescado Rabioso, desta vez um “Power trio”.

Spinetta foi atrás de músicos bons, já com algum renome ele poderia se dar ao luxo de escolher com quem tocar. O problema, novamente foi o confronto de egos. O conjunto durou pouco, e produziu dois álbuns de bastante sucesso (Pescado 2 está na 19ª posição dessa lista dos 100 albuns da Rolling Stone). Com a banda já dissolvida, mas com contrato por cumprir, Spinetta gravou ARTAUD, que apesar de levar na capa o nome da banda Pescado Rabioso, se trata na verdade de um disco solo de Spinetta. E quem poderia adivinhar que mais de 30 anos depois (o disco foi lançado em 73), seria este o vencedor numa votação entre 140 jurados entre artistas, jornalistas e produtores musicais?

- e antes que alguém me pergunte, o 2º colocado na lista é Clics Modernos, do citado Charly Garcia; em terceiro, o primeiro disco do Manal, a banda de blues-rock que falei há pouco; e em quarto, Oktubre, dos “Redonditos de Ricota”, banda que também adoro e que falarei em outra ocasião.

Com o fim do Pescado Rabioso, e o sucesso de Artaud, no entanto, Luis Alberto Spinetta não estava seguro para embarcar em carreira solo. Ele era um cara de banda, e sempre quisera ter um conjunto de rock. E assim nasceu outra banda mítica por lá, INVISIBLE, onde um Spinetta mais experimentalista pode evoluir ainda mais sua música. O quarteto teve quatro álbuns e ocupou a maior parte dos anos 70 para Spinetta.

No começo dos anos 80, o Almendra meio que fez as pazes, com objetivos comerciais, é claro, e assim puderam gravar finalmente um disco ao vivo, para delírio dos seguidores saudosistas. O êxito deu origem a mais um álbum de estúdio, e outro ao vivo. Essa fase do grupo é considerada comercial pela crítica especializada e não se compara ao frescor e juventude do inicio do grupo, no final dos anos 60.

Nos anos 80, Spinetta se dividiu entre uma carreira solo relutante – produzindo o excelente álbum Kamikaze, em 1982 – e o já falado Spinetta Jade. Ter esses dois projetos paralelos se explica no fato de os discos solos de Spinetta serem mais “rockeiros”, e o Spinetta Jade ser um conjunto de músicos mostrando que sabem tocar, fazendo o seu “tango elétrico”. De vez em quando o Almendra ainda volta pra arrancar uma grana dos fãs, vocês sabem como é. Seria a mesma coisa com os Beatles, se John Lennon não tivesse morrido...

Quarta-feira, Abril 20, 2011

Quem liga para Tiradentes?


Amanhã, 21 de abril, é feriado nacional. Por coicidentemente ser também uma "quinta-feira santa", onde a igreja católica relembra o dia em que Jesus Cristo foi preso, as datas se confundem, em detrimento do herói nacional.

Sim, herói, e nacional. Temos tão poucos, que mal nos lembramos, e de fato, qual deles além de Tiradentes tem um feriado para si? Comemoramos a independência, e não Dom Pedro I. Até porque Dom Pedro não deve ser comemorado, era um tirano. Comemoramos a República, mas não o General Deodoro, que também pouco deve ser homenageado, não passava de um velhote marionete de exército que deu esse primeiro golpe que chamamos de "proclamação da república".

Tiradentes não descobriu o Brasil, não conseguiu a independência e não proclamou a republica, muito menos libertou os escravos. Mas ao contrário dos outros tem um feriado para si. Trata-se de uma homenagem a pessoa de Tiradentes, ao que ele representava.

Mas quem era Tiradentes? Joaquim José da Silva Xavier era um alferes do exército que para completar o soldo trabalhava como dentista, daí a alcunha que os pobres e os negros lhe deram: Tira-dentes. Quer coisa mais brasileira do que sabermos mais do apelido do que o nome verdadeiro do nosso maior herói nacional?

De origem humilde, Tiradentes tinha que trabalhar para viver. Mas não era tão pobre a ponto de não ter uma educação, e assim não só sabia ler, como lia muito e era influenciado por idéias revolucionárias do além-mar, sobretudo dos iluministas franceses, intelectuais que inspiraram a revolução norte-americana (1776) e a revolução francesa (1789).

Quem trouxe esses livros e essas idéias eram filhos de abastados mineradores que tiveram o privilégio de estudar na Europa. Alguns deles são poetas conhecidos da nossa literatura, como Cláudio Manoel da Costa e Thomas Antonio Gonzaga. Junto com militares, padres e comerciantes, eles tramaram uma revolução para declarar a independência do Brasil. A esse movimento, as autoridades portuguesas deram o nome de Inconfidência Mineira.

O que acendeu o desejo de liberdade dos revoltosos não eram apenas os exemplos dos Estados Unidos, mas sobretudo os autos impostos, principalmente em cima do ouro minerado em Vila Rica. O rei ficava com um quarto de tudo. E como a industria era proibida no Brasil, tudo tinha que ser importado da Europa. Os importadores então cobravam caro, tão caro, que todo o investimento do minerador se esvaia, e bem poucos faziam realmente fortuna explorando o ouro das minas gerais. Foi um novo imposto chamado "derrama" decretado pelo governador geral, que levou mineradores e comerciantes a entrar no movimento pela independência.

Antes mesmo que a nossa guerra da independencia pudesse começar, foi delatada e os conspiradores presos. Silvério dos Reis e outros comerciantes e mineradores foram presos por suas dívidas, e para ter o perdão delas, delataram o movimento do qual faziam parte. Assim o governo português pôde prender Tiradentes e seus amigos.

Todo cidadão do Brasil era considerado cidadão de Portugal. Logo, querer se rebelar contra o governo, era trair Portugal e seu governante, o Rei. A pena em geral para esse tipo de crime era morte. Mas como os amigos de Tiradentes eram filhos de gente influente, foram apenas degredados (expulsos) do Brasil. Jà Tiradentes seria executado como exemplo, para que o povo não ficasse reclamando a independência. Não seria apenas enforcado, como também esquartejado e seus restos foram exibidos em praça pública como uma macabra lição aqueles que sonham com a liberdade do Brasil.

Interessante ler os autos da inconfidência mineira - os documentos do longo processo que passou Tiradentes - é ver como ele era considerado "a encarnação do que era mal e ruim" pelos juizes, padres, promotores e autoridades governamentais. A imagem que a imprensa portuguesa colou ao rebelado foi mais ou menos a idéia do que fazemos hoje de um terrorista. Quando Tiradentes subiu ao cadafalso o povo vibrou com sua morte, como ali estava sendo executado um bandido.

Mesmo quando o Brasil se tornou"independente" em 1822, o governo dos Dom Pedro nunca lhe deu homenagens. Afinal eles eram nobres, e Tiradentes era um plebeu que ousou desafiar a coroa, e em última grau, trair justamente o avô de Dom Pedro, que era rei de Portugal na época. Para os Alcantara, Tiradentes era um traidor, até porque defendia a república, e seus ideais eram muito diferentes do Brasil Império que foi instaurado.

Mas em 1889, com a proclamação da republica, os militares queriam que o povo parasse de louvar a dinastia dos imperadores, e buscou novos heróis do então recente passado. Como Tiradentes também era militar, era um alferes, era uma figura apropriada. E assim 21 de abril passou a ser feriado nacional e a memória de Tiradentes foi recuperada, afinal ele era um precursor do "sistema republicano".

Ainda que sua vida possa ter sido mesmo mitificada pelos militares positivistas que proclamaram a república, é fato que Tiradentes existiu e morreu, executado por "trair" a coroa portuguesa. Os documentos do seu julgamento - que o tratam como criminoso - são incontestáveis. Ele era um legítimo rebelde, alguém que não se conforma com o estado geral das coisas, principalmente com a forma como ele e seu povo eram governados.

Através da independência política, Tiradentes via uma forma do Brasil se tornar um país mais justo e livre, sem que os ganhos das pessoas fossem explorados por tiranos que enriqueciam sem fazer nada. Pode até ser ingenuo da parte de Tiradentes acreditar que a independência bastava, já que é comum aos revolucionários sempre se tornarem novos tiranos. Mas o fato dele lutar pelo que acreditava, e arriscar a própria vida, foi um feito bem raro na nossa história brasileira, cheia de delatores, colaboradores e covardes.

É triste ver uma pesquisa na rua e as pessoas não saberem porque 21 de abril é feriado. Eu me pergunto o que andam ensinando nas escolas e quando ensinam, se as crianças prestam atenção? Tiradentes foi muito mais herói do que Airton Senna, mas as pessoas não pensam nele, nem o homenageiam. Nem pensam no significado dele ser o nosso unico herói que tem, e merece, um feriado nacional.

Talvez porque a mídia não ache atraente glorificar alguém que desafiava o status quo e pregasse uma revolução. Tiradentes continua sendo um perigo. Jà um cara que corre por dinheiro e por acaso se mata na pista, esse é um bom exemplo para nossos rebentos, afinal fama e dinheiro são coisas que os jovens tem que ser ensinados a perseguir como objetivos máximos de vida, não esses tolos sonhos ideais de uma sociedade mais livre e mais justa.

Sábado, Abril 16, 2011

Receita para um psicopata



1) Pegue 1 criança com predisposição genética a problemas mentais;

2) Junte uma educação descuidada por parte dos pais;

3) Acrescente um pouco de bullying escolar;

4) Adicione pitadas de frustração sexual;

5) Misture com doses de religião;

6) Unte com acesso fácil a armas de fogo.



Pronto! Agora é só achar uma escola cheia de crianças inocentes e jogar o louco lá dentro!

Porção: 12 pessoas assassinadas ou até onde acabar o estoque de balas ou um policial macho pra fazer o serviço

Sábado, Julho 03, 2010

A insegurança pública já virou caos social

Não é de hoje que se reclama do aumento da criminalidade em Penha. Mas nos últimos meses, o número de ocorrências chegou a tal número que supera até mesmo o verão, quando o aumento da população, trazendo alguns visitantes indesejáveis tornava “natural” os assaltos nos comércios. Que isso esteja acontecendo com tal intensidade agora na baixa temporada é preocupante.

Pior são os assassinatos, pois além do dinheiro tão arduamente ganho pela gente honesta que trabalha, agora nossos cidadãos correm risco de vida. 07 assassinatos em 05 meses. Isso pode ser normal numa cidade maior, mas pra um município com menos de 25 mil habitantes proporcionalmente é mais do que em Navegantes, que é considerada a segunda cidade com maior índice de criminalidade de Santa Catarina.

Uma vez que nossas autoridades se esforçam para aumentar a migração, o assunto não pode mais ser tratado como secundário pelo prefeito e sua equipe. Afinal muitos vem morar aqui justamente por causa da tranqüilidade. A criminalidade ameaça não só o morador, como também o turismo e o futuro da cidade.

Claro que segurança pública é dever do governo do estado, que falha em Penha como falha em toda Santa Catarina. Não somos realmente uma exceção, mas vítimas de uma política equivocada de segurança que trabalha pouco na prevenção e não consegue providenciar os recursos para o tratamento.

Nossas autoridades há anos pedem efetivos que não são enviados, no máximo até chegam uns veículos novos, mas quem irá pilotá-los se falta polícia?

Mesmo assim, há muito que o governo municipal pode fazer. O mais urgente seria a criação da guarda municipal, para aliviar a Polícia Militar da vigilância dos problemas de trânsito e deixar nossos poucos efetivos a combater a criminalidade propriamente dita. Quem diz que isso custa dinheiro, ora, basta não perdoar as multas aqui aplicadas, e a arrecadação será suficiente para os salários e veículos destes guardas.

Segundo, é preciso investir pesado em atividades de prevenção, principalmente no setor educacional e cultural. As escolinhas de esportes estão desativadas. Faltam espaços públicos para as crianças se encontrarem de forma saudável, não só no esporte, como também uma fundação cultural que promova cursos neste setor. A vida das crianças e adolescentes em Penha é entediante, e as drogas muitas vezes acabam se tornando uma rota de saída para os mais impressionáveis.

Terceiro, é preciso tratar dos menores infratores, que apesar da crença popular da impunidade, o problema é que não há para onde a Justiça enviá-los. A Casa de correção em Itajaí está lotada. O correto seria construir aqui um lugar para a internação desses jovens, onde além de cumprirem uma pena pela responsabilidade de seus atos, teriam educação formal, cursos profissionalizantes, e acompanhamento médico e psicológico, para ajudar principalmente as vítimas do vício.

O que não pode é as autoridades cruzarem os braços sobre argumento de que o assunto não é da sua alçada. O bem estar do cidadão é sim da competência do governo municipal. Sua prioridade, até.

Quinta-feira, Julho 01, 2010

Ficha Limpa no dos outros é refresco


E o DEM indicou um vice. E o Serra teve que engolir. Um tal de Indio da Costa. Que apesar do nome, não é silvicola. É branco branquinho, só falta os olhos azuis, mas a elite carioca se destaca pelos olhos castanhos.

Como todo bom membro da elite, Indio foi bem casado: com a filha do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, aquele mesmo do falido Banco Marka, que deu calote nos seus clientes e fugiu para a Europa. Lembrando que também recebeu uma ajudinha do governo FHC (e deve ter sido aí que o Indio do DEM conheceu a filha do banqueiro), bilhões de reais do Banco Central, que tratou de desviar. Era a época do "Bolsa Banco", aquela que a mídia e a classe média nunca reclamaram. Porque sustentar banqueiro, pode.

Cacciola acabou preso, porque hoje em dia, graças a Deus, a polícia federal não perdoa mais ninguém, e Cacciola está cumprindo pena no cadeião. Quem disse que rico não vai pra cadeia? No governo Lula começaram a ir, é preciso acabar com essa ameaça aos privilégios da gente bem nascida e bem quista nesta país. E eis aí nosso "herói", Índio da Costa.

Índio da Costa é afilhado político do cacique carioca César Maia, e na verdade resolve um problema local dos democratas. Mais ou menos o que o PSDB queria fazer com Álvaro Dias (resolver um problema local no Paraná), o DEM acabou fazendo, só que no Rio. Na falta do Café com Leite (São Paulo + Minas), vai mesmo Café com Pinga (São Paulo + Rio de Janeiro).

Mais seria um vice de verdade? A imprensa amiga dos demotucanos quer que sim. Afinal, Índio da Costa seria o "relator do projeto ficha limpa", aquele moralizante projeto de lei que proibiria politicos que foram condenados pela justiça a serem candidatos por um tempo. (Falando em ficha suja, 21 dos atuais parlamentares que supostamente não poderiam se candidatar são do próprio DEM)

Mas enfim, se faz muita confusão aqui entre as palavras. Relator não é autor. Relator é um deputado escolhido para fazer os relatórios da comissão de trabalho (composta por vários deputados) que fizeram o projeto de lei. Porque o autor é a SOCIEDADE BRASILEIRA. O ficha limpa é um dos poucos projetos que vieram da sociedade, através de entidades e organizações não-governamentais pedindo mais ética na política, através de abaixo-assinados. Ou vocês pensam que algo como o ficha limpa iria surgir de livre e expontânea vontade na cabeça de um político???

Mas então o DEM arrumou o "menos pior" entre os seus correto? O relator do ficha limpa. Quer dizer, fora ele qualquer outro seria atacado... Ou não?

Até o Sr. Índio da Costa tem seus esqueletos no armário. E quem disse não é o PT, vejam bem, não são os adversários. Quem diz isso são os próprios aliados da coligação demo-tucana.

No caso, uma vereadora do PSDB do Rio de Janeiro, Andréia Gouveia Vieira. Ela foi relatora da CPI da Merenda Escola, na prefeitura da capital daquele estado. A tucana apresentou seu relatório sugerindo que o ex-Secretário da Administração Municipal Índio da Costa fosse responsabilizado civil e criminalmente pelas licitações duvidosas ocorridas sob sua gestão.

Nesta quarta-feira, 30/06, quando soube da indicação do ex-secretário para vice de Serra, a vereadora tucana, em seu segundo mandato, reagiu negativamente. Neste sentido, Andréa Gouvêa declarou a imprensa: “o que eu penso do candidato Índio da Costa está refletido neste relatório da CPI. Houve direcionamento no resultado da merenda escolar. A conduta dele não é uma conduta de Ficha Limpa”.

A vereadora ainda acrescentou que Índio da Costa “é uma pessoa que é arrogante, prepotente, que aqui no mundo político do Rio de Janeiro não é popular, um nome que poucos sabem quem é e tem dificuldade de transitar”. Gouvêa ainda afirmou: “não consigo ver como ele agrega. Até poderia dizer que, nesses circunstâncias, é um nome que não cheira, nem fede. Para mim fede. Ele não é um nome sem rejeição, ele tem rejeição”.

Mas não acaba por aí. Porque quem está na chuva é pra se molhar, digo, quem está na política é pra enlamear. Ficou exposto, vira alvo, é a lei da selva (política).

O jornal Carioca O Dia publicou hoje reportagem dizendo que o deputado democrata responde processo indenizatório na Justiça por ter ferido três pessoas, quando dirigia no sentido contrário da pista. Podemos dizer que Serra realmente tem um vice que vai na "contra-mão".

Um vice empresário para o Partido dos Trabalhadores

Há poucas horas da meia-noite, quando acabava o dia 30 e vencia o prazo para os partidos políticos fazerem as convenções e decidirem seus candidatos, as confusões e reviravoltas que marcaram esta pré-campanha eleitoral (quando os partidos fazem seus acordos) continuaram até os últimos minutos.

O PDT estava pra coligar com o PT, até o momento em que os petistas negaram o nome de Manoel Dias e preferiram um de Joinville. Os pedetistas não gostaram da rejeição do seu líder, e correram de volta ao PP. Com o PSDB longe da sigla, e o risco de Angela fazer campanha para Serra momentaneamente afastado, puderam formalizar o acordo que tanto queriam - com quem está na frente da campanha, até o momento. Assim, Manoel Dias (PDT) será o vice de Angela Amin.

Mesmo assim, a convenção do PT teve bastante festa e energia, se comparando com a do PP de Angela Amin. Em sua coluna hoje nos principais jornais catarinenses, o jornalista Moacir Pereira elogiou a rápida articulação da direção petista e a acertada escolha do vice, que ficará sendo o empresário GUIDO BRETZKE, filho do fundador do grupo Bretzke, e ex-presidente da Associação Comercial e Industrial de Jaraguá do Sul por dois mandatos.

"O comando estadual do PT mostrou agilidade e competência política na escolha do candidato a vice-governador na chapa de Ideli Salvati, depois de surpreendido com o cancelamento das negociações com o PDT e a opção de Manoel Dias vice de Ângela Amin", escreveu Pereira.

"
A indicação do empresário Guido Bretzke representa um lance de marketing e a reedição da competente articulação do comando nacional petista quando, em 2002, optou pelo empresário José Alencar como vice de Lula", complementou.

Guido Bretzke assumiu o comando da Bretzke Alimentos em 2001 quando a empresa entrou em concordata. Desenvolveu ações, promoveu a modernização da gestão e deu vida nova à economia regional. Foi eleito entre 1.200 participantes Líder Empresarial de Santa Catarina em 2007. Implantou um novo conceito de gestão na Bretzke e depois na Sasse Alimentos.

Enquanto isso, a convenção do PSDB aconteceu num clima de extrema polêmica. Eles aprovaram a coligação com o DEM, mas somente por ameaça de intervenção do diretório nacional. O governador Leonel Pavan criticou a direção nacional em seu discursos e foi aplaudido. Vaiado mesmo só os discursos daqueles que apoiaram a tríplice aliança. Vários tucanos sairam dali dizendo que não votariam, quanto mais fariam campanha para Raimundo Colombo.

Ou seja, haverá tucanos na campanha de Angela Amin, assim como haverá peemedebistas na campanha de Ideli Salvatti. Em vários aspectos, a Triplice Aliança parece um casamento forçado. Se Raimundo Colombo não se eleger governador, está claro que o grupo explode.

Eduardo Pinho Moreira, mesmo com a filiação suspensa pela direção nacional do PMDB, disse que vai registrar a candidatura. O embróglio jurídico vai começar. Seja como for, tudo caminha para a filiação de Moreira no DEM, após a campanha eleitoral - já que o PMDB nacional não o quer mais. Ou seja, será que os peemedebistas farão campanha para uma chapa PURA dos democratas para governador???

A novela está longe de acabar. Na verdade, mal começou.