Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Quem se incomoda com os emos?

A primeira vez que vi um grupo de emos eu achei divertido. Estava num shopping center, provavelmente pra ver um filme, e lá estava uma patota de cinco ou seis crianças, com aqueles cabelos lambidos, maquilagem, roupas pretas com tons coloridos como rosa. Era uma estranha combinação de clubber com gótico. Eles olhavam em volta meio desconfiados, sabendo que estavam chamando a atenção. De repente tive uma certa compaixão por esse sentimento de inadequação deles, e me lembrei de quando eu era adolescente. Por isso, confesso que ganharam a minha simpatia.

Claro que como muitas pessoas eu não topo muito com o “modo de vida emo”. Não vejo problema nenhum em ver o mundo como uma merda, ou sofrer por amor (o que é romanticamente bonito), mas a impressão que eu tenho, não só dos emos, mas de todas as tribos fantasiadas, é que um bando de pirralhos de classe média chorando com a barriga cheia. Quando eu era criança não simpatizava muito com os punks – ironicamente na adolescência iria começar a curtir punk rock e na faculdade em diante eu sempre me dei com os punks em geral, principalmente aqueles que lêem bastante. Não sou anarquista, mas simpatizo com a teoria, e sempre gosto de discutir política e suas doutrinas. Em suma, pra ser meu amigo, não precisa concordar comigo, basta ser inteligente. Conheci punks inteligentes. Alguns idiotas, é claro, mas isso existem em tudo que é tribo.

Mas o problema, na escola, é que a turma punk era um bando de filhinhos de papai de classe média, que achava que anarquismo era simplesmente “destruição”. Achavam que a ideologia estava mais no barulho da música do que nas letras. Sem falar na importância que davam no jeito de se vestir. Em geral, eu sempre desprezei essas “tendências” estilísticas.

Os punks, os metaleiros, os góticos, até o grunge. E olha que eu, em vários aspectos sou quase da geração grunge, era adolescente no finalzinho dela e gostava (gosto) bastante da música de Seattle. Mas esses “uniformes” sempre me soaram como uma eliminação da personalidade própria do individuo, uma massificação coletivista. Eu nunca liguei pro jeito que me vesti, e me achava “especial” na minha individualidade.

Somente quando os anos 90 acabaram, que eu pude enxergar as coisas com clareza. Bom, Hobsbawn avisou que você tem que deixar sua época passar pra analisar com objetividade. O fato de eu nunca ter feito parte de tribos não era tão especial: toda a minha geração pensa assim. O que a geração dos 90 tem em comum é o individualismo, e essa é uma das razões que não conseguimos produzir nenhum momento intelectual-cultural que preste. O próprio grunge mesmo morreu na casca, porque era tiro pra tudo que é lado. O grunge tinha uma ordem estética parecida com a tropicália, algo que não podia durar por muito tempo, justamente porque, musicalmente falando, pregava a miscigenação de qualquer gênero de rock, acabando com aquela briga ridícula entre punk e heavy metal. A turma de Seattle gostava tanto de Ramones quanto de Black Sabbath, era influenciada tanto pelo Neil Young quanto pelo Kiss. Já o jeito de se vestir, que aqui era coisa de loja, bom, lá a camisa xadrez é roupa de “pobre” mesmo, a flanela um tecido de pobre apropriado para o frio. A “moda grunge” apenas reflete o jeito que o povão se veste, alguma dúvida olhe o figurino da série “My Name is Earl”. Os protagonistas não são grunges, eles são caipirões típicos americanos. É daquele jeito “sujo” (grunge) que o povão se veste mesmo. Em suma, o grunge já trazia essa ruptura com a idéia de tribo, seja na roupa, seja na música, ou até mesmo as posturas ideológicas conflitantes. O niilismo do Kurt Cobain não tem nada a ver com a música engajada pós-beatles do Eddie Vedder (Pearl Jam).

Assim, como muitos dos meus pares dos anos 90, eu “gostava de tudo”, e me achava o máximo por ouvir Ramones e Engenheiros do Hawaii. Mas o fato é que a gente, mesmo quando não percebe, geralmente acaba seguindo o resto da manada, afinal somos influenciados por várias “forças ocultas” – mídia, sociedade, professores, família e, claro, nossos amigos que são os “retransmissores”. Um comportamento realmente “único” é tarefa praticamente impossível dentro dessas forças sociais, que tem seu sucesso garantido justamente por não se fazerem sentir, nem parecerem opressivas. Quando você acredita que existe liberdade, não questiona o tipo de liberdade que se tem.

Por isso, acho engraçado o tamanho do ódio que galera “anti-emo” dedica a essas pobres crianças tristes de cabelos lambidos e roupas pretas. Quer dizer, quem eles estão incomodando? Pode não parecer, mas do seu jeito bizarro, eles estão se divertindo, como os hippies faziam, como os mods, os metaleiros, os punks, os góticos, os grunges, os clubers, enfim, toda e qualquer tribo se organiza. A palavra tribo é bem apropriada: você se identifica com essas pessoas, se veste como elas para expressar sua afinidade, você se sente protegido nessa célula social. De repente, você não está sozinho no universo: mais gente pensa como você.

Sentimento de rebanho? Como eu disse antes, erroneamente pensava assim nos anos 90, com toda a minha “identidade única e pessoal”, mas agora sei que isso não existe. Todo mundo está numa tribo, todo mundo. E o que mais prova isso é justamente o ódio contra os emos: afinal as tribos odeiam umas as outras por questões ideológicas, é fato. Se você odeia os emos é porque sua visão de mundo é bem diferente da deles, de certa forma, o comportamento deles te ofende e te empurra pra vontade de esganá-los e humilhá-los sempre que puder.

Toda tribo, em que época apareça, é uma reação a uma situação histórico-social. Você pega os hippies nos anos 60, onde tem uma nação (os EUA) voltada para a guerra, um mundo dividido pelo confronto da guerra fria, e toda a opção encurralada na escolha ideológica entre injustiça (EUA) e opressão (URSS). Os hippies negam essas alternativas, porque acreditam que elas não podem ser as únicas do mundo. Como a sociedade americana acredita que ganhar dinheiro é o objetivo máximo da vida, os hippies começam com negar esses valores.

Os mods ingleses já é o tipo de caso de “gangues de meninos brancos”. Toda hora seus pais e avós ficam falando que ganharam uma guerra, que o mundo que vocês herdaram é por causa do sangue deles. O saco cheio desses garotos se manifestou neles quererem suas próprias batalhas, e a violência como canal para valorização e busca por identidade.

O metaleiro é uma espécie de hippie domesticado. Ele aceita o sistema – seja capitalista ou “socialista”, caso não saibam, havia metaleiros e bandas de metal até na extinta URSS! São jovens que querem se divertir, sua música procura uma fuga da realidade que tem que encarar no seu emprego normal. Por isso fala de tantos seres místicos ou sagas do passado, ou se baseia em coisas impessoais como a literatura. Os primeiros metaleiros eram ex-hippies, gente que decidiu “aderir ao sistema”, como o Led Zeppelin. Se você pegar uma banda como o Iron Maiden aquilo é mais uma empresa do que uma banda de rock propriamente dita. Os cabelos compridos, as vestimentas e os gritos rebeldes estão mais como um produto a se vender do que algo autêntico propriamente dito.

A reação a isso foi o movimento punk no fim dos anos 70. Essa turma queria a realidade nas letras das suas músicas, uma música que não fosse sofisticada, mas violenta, selvagem e popular. O espírito do “faça você mesmo”, ninguém precisa saber tocar um instrumento pra fazer música. Se expressar, livremente, era a máxima. Os punks, ao contrário dos hippies, não acreditam na paz e amor, eles não são tão traumatizados com a guerra quanto seus pais. Eles acreditam no confronto, na revolução social, como forma de promoção da mudança.

Já na década de 80, o movimento mais importante foi dos góticos, vindos da ressaca punk. Admitindo que não dá pra mudar o mundo, eles esperam o apocalipse inevitável. Não a toa a geração dos anos 80 foi chamada de “a geração vazia”, uma geração esmagada pelo peso da profunda relevância cultural dos anos 60 e 70, sendo constantemente comparada aos seus predecessores. O próprio desenvolvimento da industria cultural meio que tirou a relevância dessas tribos, com o comportamento não sendo mais que uma estratégia de marketing pra vender disco. No final dos anos 80 você tinha como maior expoente uma banda artificial como Guns & Roses, fazendo um “metal de arena” básico e ultra-comercial. A “rebeldia” mais do que nunca engarrafada e a disposição no supermercado.

O grunge meio que foi um grito niilista contra esse estado de coisas, contra a padronização. Você é um musico de heavy metal ou punk rock? Que se foda. De repente não dava pra rotular aquele tipo de música que era um meio termo, e assim rotularam de grunge. O Nirvana e o Alice in Chains também acreditavam, como os góticos, que o mundo estava pra acabar, mas de um jeito cínico e debochado, o característico “não estou nem aí”, que foi a nossa máxima dos anos 90 (virou até refrão de música no Brasil).

Então qual é a dessa turma emo? É uma reação, como todas as outras tribos foram. Nós vivemos numa sociedade que impõe um conjunto de valores “vencedores”. Você tem que vencer, você tem que crescer, você tem que sorrir, tudo dá certo no final, ame quem te ama, se divirta com a galera, estude, trabalhe, case, reproduza, morra, todas as doutrinas alternativas ao sistema capitalista se provaram equivocadas, não há alternativa, o mundo sempre será assim para sempre e sempre, amém e bla bla bla.

A admissão que não dá pra mudar o mundo – pregada na escola, em casa, na televisão, nos cultos evangélicos – tem como máxima a indiferença absoluta do ser humano. Não podemos amar o próximo, temos que desconfiar do próximo, afinal todo mundo só quer vencer. A pessoa que te ama? Tenha certeza, ela vai te trair, dizem os filmes e programas na TV. Aquela criança de rua? Ela vai te roubar. Aquele mendigo? Está te enganando. Aqueles idealistas? Estão te usando.

Em suma, a nossa tribo, a tribo geral, daqueles que não usam “uniforme”, nem fantasia, é a tribo dos indiferentes, dos que sentem apenas desejos de consumo incentivados pela publicidade. Essas crianças, por isso mesmo, se acham “emotivas”, porque não aceitam ser indiferentes. Eles querem sentir. Sentir ao máximo. Elas acreditam, como Vinicius de Moraes dizia, “que o amor só é bom se doer”. É uma filosofia que vem desde o romantismo do século XVIII e volta e meia reaparece. Um modo pessimista de ver a vida? Talvez, mas no pessimismo está uma aceitação da realidade que os que se conformam com o consumismo como máxima de vida jamais vão entender.

Por isso tanto ódio. Os emos, com suas bizarrices e cabelo ridículo, no cantinho deles, parecem estar apontando o dedo pra gente e dizendo: vocês não são gente, são máquinas. Vocês não sentem, não se importam. Vocês não tem alma, mas um buraco negro no lugar. E claro que nos sentimos incomodados, e temos que dar uma porrada nesses moleques.

Não que a solução seja sermos todos emos ou emotivos. Eles são uma reação radical ao sentimento de indiferença que toma a humanidade. Toda tribo é radical e exagerada. Todas elas. Os hippies com seu libertarismo irresponsável, os metaleiros alienados, os punks violentos, os góticos suicidas, os grunges drogados e esses emos com essa choradeira sem fim. Mas mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes por dia. Por isso eu tenho simpatia por todos eles, inclusive os emos, e pela gente, a nossa imensa, iludida e quase unânime tribo dos individualistas.

Estamos certos e eles errados ou o contrário? Eu não sei. Só sei que não vou me incomodar com algum jovem emo vivendo a vida do jeito que bem entender, assim como eu vivo a minha do meu jeito, e ninguém têm nada a ver com isso. Quem se incomoda tanto com o vizinho é porque tem algo faltando no seu quintal, e você deve arrumar as coisas em casa antes de ir procurar confusão na rua, é o que eu acho.


Terça-feira, Novembro 03, 2009

Marvel Max é mesmo uma selo de "histórias adultas"?

Aproveitei o feriado pra ler alguns quadrinhos que estavam “na pilha”, e resolvi que era hora de ler o que me faltava ler da linha “adulta” da Marvel, o tal selo MAX.

Eles criaram isso lá por 2002, com o objetivo de fazer frente a linha adulta da concorrente DC Comics, o prestigiado selo Vertigo – que editou Best-Sellers como Sandman, Preacher, Os Invisíveis, Transmetropolitan, Hellblazer, bom, você deve ter ouvido falar.

O principal titulo da linha Max é o Justiceiro, a única revista mensal do selo, aliás. Eu li o primeiro arco da revista “No Princípio”. Já havia lido quando saiu na revista do Demolidor, aqui no Brasil, mas nunca toda a história numa única tacada. Devo dizer que o autor Garth Ennis, pelo menos nesse título do Justiceiro, não deveria escrever pra revistas mensais, porque a história funciona muito melhor quando lida de uma única vez. Tudo deveria ser publicado direto nesses encadernados de 148 páginas, na minha opinião.

Não há dúvida que Garth Ennis é o melhor autor do Justiceiro de todos os tempos. Ele não perde tempo tentando conseguir alguma empatia dos leitores aos personagens. Frank Castle não é um cara normal, em definitivo. Ele é um assassino, que felizmente resolveu descarregar sua raiva em criminosos, para alivio das pessoas comuns. Mas ele não perdoa. Cometa algum deslize que até os seus “amigos”, como o ex-parceiro Microship, e ele irá te punir (afinal o nome em inglês dele é Punisher, o Punidor).

Ennis, com seu cinismo habitual, mostra um mundo egoísta, onde a linha que separa o bem do mal é muito tênue. A trama é bem construída e os diálogos se sustentam. Mas tudo isso é apenas uma desculpa para o autor apresentar a carnificina que tanto queria quando pediu ao editor Joe Quesada que o deixasse levar o Justiceiro para o selo Max. O gibi já começa com o Justiceiro invadindo uma festa de um mafioso de cem anos e matando os principais capos ali reunidos. Na segunda edição, Frank não dá trégua e ataca o restante num cemitério.

Para enfrentar um vigilante tão barra pesada, só psicóticos maiores. Daí entra Nick Cavella e seus dois assassinos-psicopatas, caras doentes mesmo.

SEGUNDA LEITURA: O matador de Idiotas, na história “Anjos Brancos”. Basicamente o personagem é uma espécie de Justiceiro cujos autores realmente o assumem como psicopata e o tratem assim. Criado no final dos anos 70 pelo escritor Steve Gerber, eu diria que o Matador de Idiotas é o precursor do Dexter, o psicopata da série de TV que persegue outros psicopatas. Enquanto para Frank Castle o que importa é a quantidade, para o Matador de Idiotas o importante é passar a “mensagem”: Cada cena de crime tem que ser um recado para as pessoas não saírem da linha, senão...

Dessa vez, o Matador de Idiotas está atrás de um grupo de racistas, que atacam principalmente mexicanos imigrantes. Por um lado é legal verem esses idiotas recebendo o que merecem. Por outro, a HQ, se resume em muito a mostrar sangue, tripas e muita carnificina praticada por ambos os lados, vilões e “heróis”. Ah, sim, o Justiceiro aparece pra fazer uma participação especial e rola até uma parceria entre os dois matadores.

Completando a tarde, li a mini-série “Destroyer”, produzida pela dupla que criou o gibi Invencible para a Image, Robert Kirkman e Cory Walker. O personagem foi um dos primeiros heróis a serem criados por Stan Lee, quando ele ainda era um adolescente, no início dos anos 40.

O herói a Era de Ouro até matava alguns nazistas de vez em quando, mas aqui aparece muito mais sanguinário e impiedoso. Ele não vacila em usar sua super-força para atravessar o punho no corpo dos inimigos. Já velho e com problemas cardíacos, o Destruidor tem que encarar que vai morrer. Por isso, ele resolve ir atrás dos seus antigos inimigos, mesmo presos ou aposentados, e matá-los, para que eles não possam mais incomodar quando ele partir.

Com a leitura desse terceiro livro, vi uma coisa comum em todas essas séries do selo MAX: são sobre caras durões que fazem justiça com as próprias mãos e não sentem remorso em matar a sangue frio. Eles deliberadamente vão atrás das pessoas para os assassinarem. Até aí, não acho que seja um tema proibido, ou que não possa ser bacana explorar histórias com tais personagens como protagonistas.

O problema é que a linha MAX parece se resumir a isso: sangue, mais sangue, e mortes a rodo. Como se o único motivo de ter um “aconselhado para leitores adultos” na capa fosse o fato de ser bastante violento. Mas até aí, muitos videogames que os pré-adolescentes adoram também são.

Fica daí a dúvida se a tal selo Max não é mais propaganda de que é um “gibi adulto” para atrair a molecada – que é quem realmente persegue cenas de sexo e violência explicita – do que realmente algo que trata de “temas maduros”, difíceis de uma criança entender. Aliás, devo dizer que falta sexo nas revistas MAX, uma decepção para os punheteiros que comprarem essas revistas porque ao lerem “indicados pra adultos” devem pensar se tratar de gibis de sacanagem...

O principal trunfo do selo Vertigo é justamente a seriedade. Infelizmente esses gibis tem que vir com um aviso que são impróprios pra menores porque muita gente acha que gibis são coisa para crianças, e assim evitar que algum pai compre uma revista que fala sobre demônios como Hellblazer para os filhos pequenos. Mas na verdade, as revistas da Vertigo podem sim ser lidas por jovens inteligentes, assim como vários marmanjos de mais de 30 anos não tem condições de entender um gibi dos Invisíveis ou acham uma edição de Sandman chata.

Falta um pouco disso na linha MAX. Não que ela seja ruim. Todos os três gibis que li são divertidos e é legal que a Marvel faça gibis assim, sem “amarras”. Mas gostaria que os autores da Marvel aproveitassem a liberdade pra produzir também material mais sofisticado. Que ao lado do Justiceiro do Garth Ennis, tivesse algum gibi da Marvel no nível de um Sandman. Quando anunciaram Hellstrom pensei que a Marvel tentaria fazer algo na linha do ótimo Hellblazer, mas foi uma decepção. Parecia um daqueles gibis de “terror” da Marvel dos anos 70, mas sem censura.

Alguém poderia dizer que a diferença da Vertigo são seus gibis autorais, e que a verdadeira linha autoral da Marvel é o selo Icon (haja selo aliás, e o pior, um é tão parecido com o outro...). Errado. Hellblazer não é autoral, Monstro do Pântano, Sandman e Livros da Magia, todos eles pertencem a DC Comics, não aos seus autores. Os recentes sucessos da Vertigo Madame Xanadu, Soldado Desconhecido e Casa dos Mistérios revitalizam marcas da DC Comics. Alvo Humano e Os Perdedores, uma virando série de TV, a outra filme, são personagens da DC que foram reformulados na linha Vertigo.

Em suma, o selo Marvel Max ainda está devendo. E muito. Se Joe Quesada quer que o selo continue apenas satisfazendo os mesmos marvetes de sempre, ele vai muito bem, é claro. Mas se a pretensão era atrair um novo público – como o Selo Vertigo ajuda a DC Comics a atrair e manter um publico mais sofisticado comprando seus gibis – então o selo Max tem basicamente falhado.

Nada contra o Justiceiro e o Matador de Idiotas fazerem aquilo que fazem melhor. Mas bem que eles poderiam ganhar a companhia de personagens com temática diferente, porque comer carne vermelha todo dia, por mais que eu goste de um churrasco mal-passado, acaba enjoando, e ainda por cima faz mal, é bom lembrar.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Conrad fica com medo dos evangélicos e censura capa de Robert Crumb












A esquerda, capa original; a direita, a capa sem-graça da Conrad.


Nos últimos anos, tenho ficado preocupado com a ascensão do dito "movimento evangélico" no Brasil. Eu acho válido a liberdade religiosa, pena que o pessoal religioso não pensa da mesma forma, e vem se metendo cada vez mais nas leis, cultura e sociedade brasileira, tentando impor seus dogmas para o resto das pessoas, no seu esforço de "construir o reino de Deus na Terra".

O problema é que esse pessoal não entra em acordo sobre qual o projeto de Deus para nosso planeta. O Reino de Deus do evangélico George W. Bush não é o reino de Deus do islâmico Osama Bin Laden. E o resultado dessa "discussão" a gente conhece muito bem.

O maior problema no Brasil é que tal "movimento" não é fruto de uma seita em especial, apoiada em alguma "revolução teológica" que legitime seu papel de contestadora da Igreja Católica. Mas sim um punhado de seitas - e novas surgem todo o dia - que, cada uma da sua forma, reivindica o papel de verdadeira porta-voz da vontade divina. Quase todas com a mesma origem, Jesus ou um anjo do Senhor os chama para o ministério e apontar "o verdadeiro caminho". Uma vez que são mais de 100 igrejas evangélicas diferentes, as coisas no céu devem estar uma bagunça, pra tanta indecisão assim.

Claro que na hora de defender os seus interesses, esses grupos com "diferenças teológicas" se aproximam, principalmente pra eleger políticos que os representem no governo. Daí vem o perigo, como os recentes livros censurados nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul e algumas cidades paranenses.

A força política dos caras já é de tal tamanho que eles possuem vários canais de televisão, e não é só a Record não. Dos 30 canais abertos, quem tem parabólica, dá uma conferida: contei na última nove canais de programação religiosa! Nove em trinta! Quase um terço! Uma vez que pra abrir um canal de TV precisa da consessão do congresso nacional, aí fica claro porque eles se esforçam tanto em eleger deputados federais e senadores.

A coisa já chegou a tal proporção, que até mesmo editoras progressistas como a Conrad - que já imprimiu livros de conteúdo anarquista e libertário - ficou com medo dos fanáticos, e CENSUROU a arte original de Robert Crumb para a capa do livro GENESIS, seu mais recente trabalho, que adapta o primeiro livro da Bíblia.

Apesar de ser um autor polêmico, Crumb é considerado mundialmente como um grande artista, um dos maiores já surgidos no século XX, rivalizando com muitos pintores de renome. Sua mais nova empreitada foi transformar o primeiro livro bíblico em uma história em quadrinhos, coisa que já foi feita várias vezes, aliás.

Mas ao contrário das anteriores, Crumb não foi nem pedagógico, missionário ou satírico. Eles apenas adaptou o Genesis tim por tim-tim. Se está escrito no texto bíblico que os personagens estavam pelados e fizeram sexo, Crumb desenhou assim. Ele apenas seguiu o roteiro.

Isso é suficiente pra alguns religiosos não gostarem do livro, e nessas horas eu me pergunto quantos cristãos realmente leram ou lêem a Bíblia. O velho testamente, mesmo, talvez nem devesse ser recomendado para crianças. Tem situações ali como incesto, que nem as novelas da Globo ousam - e olha que os pastores evangélicos dizem que é um pecado assistir essas novelas da Globo! O que diremos de Lot sendo seduzidos por suas filhas? Ou de Abrão casar com a própria irmã, Sarai? Até hoje o massacre divino na cidade de Jericó inspira israelenses a matarem palestinos. E David, que mandou matar um cara pra ficar com a mulher dele?

Por essas e outras, o cético Robert Crumb deve ter se interessado em adaptar o livro de Genesis, o mais mitológico e fantasioso de toda a Bíblia. Eu já li esse livro duas vezes aliás, uma como criança, outra já adulto. Ele tem vários elementos épicos capazes de interessar até mesmo quem não é religioso. E também é um livro forte, com muito assassinato, sexo, incesto, violência e genocídio. Em muitos aspectos, eu considero a saga de uma família, de Adão até José, acompanhando gerações e seu contato com o divino.

Apesar da "coragem" da Conrad em trazer o livro ao Brasil, eles ainda são cautelosos. No caso, a bela capa com Adão e Eva sendo expulsos do paraíso, foi substituída por uma ilustração escura, representando a criação do universo, totalmente sem graça. O diretor da Conrad, Rogério de Campos, admitiu que foi pra não levantar polêmica com algumas seitas religiosas, porque Crumb desenhou uma representação de Deus na capa. Para muitas religiões, a figura de Deus não deve ser representada. No entanto, Crumb resolveu por adotar a imagem que os hebreus tinham dele ao conceberem o Gênesis, como um patriarca hebraico - "Deus fez o homem a sua imagem e semelhança".

Acho que a Conrad errou em três aspectos: 1) Na questão estética, porque a capa verdadeira é mais bonita e ajudaria a vender melhor o livro; 2) Na questão política, porque não devemos fazer concessões que diminuam a nossa liberdade de expressão; 3) Na questão religiosa, porque evangélicos podem achar que esse é um livro de pregação, pela capa "sóbria", comprarem para os seus filhos ("Olha, é quadrinhos") e ficarem irritados com o conteúdo. E se isso acontecer, vai dar ainda mais dor de cabeça para a Conrad e se duvidar uma nova pressão censória por parte dos nossos políticos "iluminados'.

Mas não existe nada "anti-religioso" na adaptação de Crumb do Gênesis. Ele apenas desenhou o que estava lá. O problema é que muitos cristãos - principalmente de algumas seitas evangélicas - lêem ou entendem pouco a Bíblia e estão mais dispostos a seguir a palavra do pastor do que as palavras que estão realmente impressas no livro divino.

Domingo, Novembro 01, 2009

Pra que facilitar se você pode complicar?

Colecionar quadrinhos no Brasil não é das tarefas mais gratas. Fora o preconceito cultural - que em geral não vem de "leitores de livros de verdade", mas de gente que lê a Veja e assiste novela da Globo - as editoras que aqui publicam as edições em português não colaboram.

Um bom exemplo é a coleção CRÔNICAS que a editora Panini publica no Brasil, trazendo histórias antológicas da DC Comics. Cada volume traz as primeiras histórias de personagens como Superman, Batman e mais recentemente, Lanterna Verde. Não só pelo aspecto da curiosidade, tais gibis são preciosos para os "estudiosos" ou simplesmente amantes das histórias em quadrinhos, afinal são a final flor do que chamamos de "Era de Ouro dos Quadrinhos" (ou Era de Prata, no caso do Lanterna Verde).

Em suma, podemos apreciar e entender como eram feitas as histórias em quadrinhos de cada época, além de todo um subtexto que elas trazem ancoradas, já que esses quadrinhos refletem, com certeza, a época em que surgiram. Até fiz um texto, nesse mesmo blog, como o Superman original estava longe dos clichês que se associaram a ele ao longo dos anos, e o personagem era muito mais politizado e progressista do que se supunha.

Por isso, seria interesante acompanhar a trajetória desses personagens e entender a sua evolução. Mas em português isso se torna impossível: A editora Panini tem o costume de publicar apenas os primeiros volumes de cada "coleção", sob argumento de que os primeiros volumes não venderam bem. Também pudera: o volume 2 de Superman Crônicas, lançado no ano passado, custava 49,90 reais. Claro, ele tinha capa dura e papel couchê, mas eram apenas duzentas páginas de quadrinhos. Ora, não fosse a capa dura, tem gibis da própria panini com esse formato, que custam 19,90! Trinta reais a mais só pela capa dura. Daí começa a nossa pergunta de que se não vende tanto é pelo material não ser popular ou pela Panini exagerar no luxo e consequentemente no preço?

Nos EUA, onde os quadrinhos são mais populares e vendem mais, nem por isso tem mais luxo. Muito pelo contrário: a série Crônicas não tem capa dura lá nos States! O mesmo volume 2 de Superman Chronicles, com 200 páginas, pode ser comprado lá por 14,99 dólares (preço oficial - no Amazon você encontra por menos de 11). Quanto isso dá em reais? 26,25 sobre a última cotação do dólar comercial. Em suma, mesmo os americanos dispostos a gastar mais com quadrinhos que os brasileiros, a editoras americanas não praticam preços e formatos exorbitantes!

A série Crônicas foi justamente pensada, lá nos States, pra ser mais acessível. Porque antes dela, a DC Comics lançou a coleção "Archives". Essa coleção também traz as primeiras histórias dos superheróis da editora, mas em papel especial e capa dura (como a série cronicas no Brasil). Com um detalhe: são edições bem mais "gordinhas", com mais páginas.

Cada volume de Superman Archives tem em média 240 paginas e custa 49,90 dólares. Daí podemos dizer que é o preço padrão da linha Crônicas, da Panini - mas com um detalhe: tem bem páginas a mais pelo mesmo preço que a Panini cobra!

Vamos ao argumento dos editores "brasileiros": como o público da coleção crônicas é pequeno, a publicação tem uma tiragem menor, para livrarias, por isso o preço mais salgado. Não é a capa dura que encarece, é a tiragem menor. Faz sentido. Mas já que não é o detalhe da capa dura o problema, fica a pergunta: porque ao invés da série Cronicas, que a série "popular" e "barata" lá nos States, a Panini não optou pela coleção Archives, já que é um projeto para um publico pequeno com tiragem limitada? No máximo teriamos que pagar uns dez, quinze reais a mais pelas paginas a mais. Ora, nós não nos importariamos. Até porque o costume da Panini é não ir muito depois do volume 1, e se é só pra ficar "no começo" teriamos mais paginas (e histórias) na unica edição (ou duas) que eles lançassem.

Um bom exemplo é o lançamento de "Lanterna Verde - Cronicas - volume 1" agora em novembro. O livro traz as primeiras histórias do Lanterna Verde. São 160 páginas, trazendo as seis primeiras revistas com Hal Jordan. Deve custar no minimo 49 reais, pelos ultimos preços praticados pela editora.

Nos EUA, o mesmo gibi custa 14,90 dólares. Claro, não tem capa dura nem papel couchê - que tem o costume de grudar as paginas, diga-se de passagem. Mas o leitor faz mesmo questão de tanto luxo?

Se faz, a DC tem o mesmo material no livro "Green Lantern Archives - vol. 1". O exemplar, com capa dura e papel couchê, tem 200 páginas e traz as primeiras oito revistas com Hal Jordan. Custa mais caro, obviamente: 49,90 dólares (detalhe: no Amazon, você compra por 32 dólares na promoção).

Então fica a pergunta: seria tão caro assim a Panini publicar a coleção Archives ao invés da Crônicas se é pra meter a faca?

Certas coisas não dá pra saber se é má vontade, falta de conhecimento ou pura ganância mesmo. E depois reclamam da "retração" do mercado...

Sábado, Outubro 31, 2009

Umbrella Academy: Uma renovada em velhos clichês


Finalmente consegui ler um gibi que espera há tempos, e até mencionei neste blog: The Umbrella Academy. Sim, ele estava "zanzando" de forma pirata na internet desde 2008, mas o fato é que, primeiro, eu sempre gosto de ler uma história completa, em suma, que saiam todos os números de uma mini-série do que ler a prestações durante cada mês. Segundo, eu prefiro ler no papel, embora na impossibilidade disso, me renda aos scans.

Umbrella Academy pra quem não sabe é aquele gibi escrito pelo vocalista da banda My Chemical Romance, Gerard Way, e desenhado pelo brasileiro Gabriel Ba, que ganhou o prêmio Harvey de melhor desenhista pela revista, que aliás, também ganhou o prêmio Eisner de melhor mini-série de 2008. Não sou lá um grande fã do My Chemical Romance - mas também não sou também um detrator, o que aliás, fez muita gente que não gostava do som dos caras já falarem mal desse gibi antes mesmo dele ser lançado. O inverso, felizmente, também ocorreu: milhares de fãs do músico leram uma HQ pela primeira vez na vida!

Quando Umbrella Academy terminou lá nos States, fiquei sabendo por fonte fidedigna que a Devir estava negociando os direitos. Corria o mês de setembro... Então pensei: "Oba. Logo pinta por aqui. Vou esperar." Afinal, já que eu vou comprar, ler pela primeira vez esse exemplar faz valer mais essa compra, do que simplesmente "comprar pra ter" após ter lido na internet.

Quadrinhos são uma mídia impressa - e não importa o que falem das "montion comics" pra mim aquilo é desenho "desanimado" - e tudo que é pensado pra ser contado nessa mídia leva em conta o formato. As páginas duplas de Gabriel Bá não são a mesma coisa na tela do computador - ou pior, no Iphone como tem gente que leu.

Agora posso dizer: valeu a pena a espera. A "Academia Guarda-Chuva" mereceu todos os elogios que levou e prêmios idem. Aí um ponto que me chama a atenção é o seguinte: os fãs de super-heróis, principamente os marvetes, não tem achado esse gibi grande coisa. Interessante que a turma indie, e os fãs da Vertigo e Wildstorm em geral receberam A Academia Umbrella de braças abertos. Por que será?

Sim, os próprios autores admitem que é um gibi de super-herói. Mas é uma equipe de super-heróis bizarras. O primeiro adversário deles é a Torre Eiffel, que ganha vida. A ameaça apocaliptica é uma orquestra de músicos piscóticos que vai tocar a suíte que trará o fim do mundo.

Não é a toa que Grant Morrison assine o prefácio. As influências do escritor são gritantes: um clima ora gótico, ora psicodélico, teorias esotéricas tratadas como mera ficção escapista, situações inverossimeis, personagens se comportando emocionalmente de forma realista. Mas Gerard Way tem voz própria? Sim, Gerard tem mais manha que seu ídolo escocês na relação entre os personagens, a forma como se comportam, conversam, agem...

Aliás, o que faz o gibi legal não é a história em si, são os personagens. É a disfuncinal família que Gerard montou para formar o seu grupo de super-heróis. Alguém já disse que a grande qualidade da Academia Umbrella era requentar clichês de forma eficiente. E estão certos: não há nada exatamente inédito na Academia Umbrella que já não tenhamos visto em outro gibi antes. O que faz a diferença é a forma como Gerard serve o prato. Como soube temperar e cozinhar no ponto certo para nos servir.

Já vimos essa temática "familiar" em Quarteto Fantástico, X-men e Novos Titãs, mas esses são gibis dos anos 60, 70 e 80. Gerard trouxe o tema até os nossos dias, sem apaziguar a complicada relações inter-familiares com água-com-açucar de telenovela, como o pessoal da Marvel e da DC em geral costuma cair. As histórias da Academia Umbrella são emocionais, mas sem cair na pieguice.

O membro mais "heróico" do grupo, o mais próximo do super-herói comum, é um cara com a cabeça num corpo de gorila. Ele está condenado a não ter uma vida normal. Diferente dos outros membros, essa não é uma opção dele. É quase uma mistura do Ciclope e do Coisa.

Temos Kraken, o batman/wolverine que todo grupo precisa ter, entrando sempre em confronto com o líder evidentemente, além de ser apaixonado pela vilã.

Rumor, a garota com poderes psiquicos, é claro.

Seanse, é o cara gótico, e talvez gay, da equipe.

Em suma, toda equipe de super-herói basicamente é montada em cima desses elementos. Então porque Academia Umbrella vale a pena? Ora, após a leitura de "A suíte do Apocalipse" fica óbvio: qual foi a última vez que um gibi dos X-men ou dos Novos Titãs foi tão divertido?

Academia Umbrella é entretenimento puro, despretensioso (outra diferente de Way em relação ao seu idolo Grant Morrison) e confiante. E ainda assim é um entretenimento inteligente, onde os mais espertinhos ficam com um sorriso no rosto ao entenderem as referencias - por outro lado, quem não entendeu, também não fica perdido.

Academia Umbrella é um caldeirão de cultura pop, revelando a formação artística do autor: fala de música, teoria do caos, teatro avant-guard francês, super-heróis americanos, filmes ingleses de horror, e vilões saídos de mangás japoneses. Tem muito mais que isso, mas a lista é mesmo grande! Tudo está tão misturado, e as vezes de forma oculta, subjetiva, que é recomendada uma segunda, uma terceira leitura de Academia Umbrella pra curtir a temperatura. Way, que antes de mais nada é compositor, sabe que uma música pra ser apreciada tem que ser ouvida mais de uma vez. Da mesma forma, seu gibi, pode se apresentar de forma mais eletrizante pra quem der outra chance.

E da mesma forma que Way mostra como discipulo de Grant Morrison, o Gabriel Ba se revela um dileto seguidor de Myke Mignola, mas com personalidade própria. O traço de Ba é mais leve, mais solto, mais claro. E isso imprime uma velocidade na narrativa que te leva da primeira a última página sem que a gente perceba que o tempo passou. O que mais a gente pode pedir de um desenhista de quadrinhos?

O sucesso foi suficiente pros direitos serem comprados por Hollywood. Mas se eu fosse você, não esperaria pelo filme não. Afinal, a gente sabe como esses caras "minimizam" e "simplificam" as coisas pra tornarem elas "acessíveis" para o "povão". Com certeza, não será a mesma Academia na telona. Compre, leia, e dê uma de sabido quando todos os seus amigos estiveram comentando o novo sucesso dos cinemas que vai estrear, daqui uns três anos, deixando claro que eles estão atrasados: você chegou antes.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Parabéns moralistas: menos HQs para as escolas

Uma coisa essencial num sistema democrático de governo é a existência da oposição. Sempre terá que haver políticos de oposição, como forma de fiscalizar e manter o governo na linha, seja que partido for que lá estiver.

O problema é como se faz oposição. Da mesma forma que se deve cobrar ética de quem governa, deveria se cobrar ética de quem se opõe, afinal não podemos fazer julgamentos políticos usando critérios diferentes quando analisamos essa "turminha".

Pois na batalha contra o governo, alguns políticos demo-tucanos passaram da linha e atacaram até os nossos amados gibis como forma de atingir o governo. Como se não houvessem mais coisas erradas no nosso país pra investigarem e criticarem. Acho que tudo deve estar muito bem pra fazer tanta polêmica sobre gibis não? Só pode. Pra oposição perder tempo e esforço atacando os quadrinhos que o Ministério da Educação indica pras escolas e bibliotecas, é porque todos os problemas do Brasil provavelmente foram sanados, então ficamos naquela felicidade política de discutirmos apenas as "picuinhas"...

Pra quem não sabe: Desde 2006 o Ministério da Educação vem, crescentemente, incluindo histórias em quadrinhos na lista de livros que são comprados e mandados para escolas e bibliotecas públicas. Apesar do grande preconceito cultural que sofreram no passado, são diversos os pedagogos que reconhecem e indicam os quadrinhos como forma de incentivar a leitura. Eu, que aprendi a ler com os gibis, antes mesmo de entrar na escola, é claro que concordo. Mais do que isso: os quadrinhos me ensinaram a ver a leitura como uma diversão, e não como um esforço. Se eu sou um devorador de "livros de verdade" desde os 12 anos de idade, muito se deve primeiro ao meu contato com os gibis.

Só para 2009 foram 20 albuns de quadrinhos indicados. O fusuê começou quando professores e políticos moralistas, principalmente evangélicos, começaram a implicar com as imagens de nudez e sexo nos livros de Will Eisner. Não, ele não é um autor de sacanagem: Will Eisner é simplesmente um dos caras responsáveis por quadrinhos serem levados a sério hoje em dia, no mesmo status artístico da literatura. Se compararmos os livros dele aos do Jorge Amado que nunca deram problema nas escolas, Eisner é até puritano.

Outra coisa que a turma moralista-evangélica demo-tucana não entendeu é que os livros do Eisner são para o pessoal DO SEGUNDO GRAU. Num livro do Eisner não há nada que não apareça na programação da Globo depois das 22h.

Em São Paulo e Rio Grande do Sul, estados governados pelos demo-tucanos, as obras de Eisner foram banidas das escolas estaduais. (depois tem gente que não goste que digam que o Serra é autoritário).

Pois bem, a primeira consequencia fiquei sabendo. Saiu a lista do MEC dos livros para 2010... Embora tenha nove albuns de quadrinhos indicados, ainda asssim é uma REDUÇÃO comparada ao ano passado. Redução que só pode se explicar como reação a essa enxurrada de críticas aos quadrinhos que esses politicos, professores e pastores fizeram, com apoio da mídia aliás (que também tem lá seus interesses eleitoreiros).

Eis as histórias em quadrinhos na lista de livros indicados aliás:

Para o ensino fundamental:

  • Os Pequenos Guardiões, de David Petersen (Conrad)
  • Grande Junim - Histórias do Maior Baixinho da Turma do Menino Maluquinho, de Ziraldo (Globo)
  • Mutts - Os Vira-Latas, de Patrick McDonnell (Devir)
  • Usagi Yojimbo - Daisho, de Stan Sakai (Devir)

Para ensino médio e educação de jovens e adultos:

  • Desista!, de Peter Kuper, baseado em histórias de Franz Kafka (Conrad)
  • Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flávio Colin (Conrad)
  • Memórias de um Sargento de Milícias, de Lailson de Holanda Cavalcanti, baseado no livro de Manuel Antônio de Almeida (IBEP/Companhia Editora Nacional)
  • Pequeno Príncipe em Quadrinhos, de Joann Sfar, baseado no livro de Antoine de Saint-Exupéry (Agir)
  • Pequenos Milagres, de Will Eisner (Devir)

Os livros são escolhidos pelo Ministério da Educação após as editoras enviarem seus títulos para apreciação. A baixa pode ter significado negativo para o mercado de quadrinhos brasileiro - as diversas editoras que têm investido em HQs pautam-se pela lista, cujo significado é a compra imediata e garantida de milhares de exemplares de cada título.

Daí fica a pergunta: Quem sai ganhando com isso? Supostamente as crianças que ficam seguras de tal "lixo cultural"? Lixo cultural são as pregações de meia-pataca de pastores semi-analfabetos que nem sabem interpretar um texto bíblico, na minha opinião. Lixo cultural é a programação da TV aberta.

Sim, há bons e maus gibis. Mas na lista do MEC, NUNCA foi indicado um "mau-gibi" - a propósito, não gosto desse termo, "mau-gibi", porque o julgamento deve caber aos leitores. O que é ruim pra mim, pode ser bom pra você... Mas como um estudioso de Histórias em Quadrinhos, vejo que a lista do MEC foi fundamentalmente pedagógica.

Pessoalmente acho até que o MEC deveria ser mais ousado. Acho que deveriam incluir V de Vingança, de Alan Moore, para o pessoal do segundo grau. PALESTINA, do Joe Sacco também. Diacho, deviam até incluir AMÉRICA, do Robert Crumb, só pra provocar esses fanáticos religiosos que ameaçam levar o Brasil a uma verdadeira "era das trevas".

Mas existe uma razão pra essa turma se preocupar com a educação das nossas crianças: afinal, quanto pior a escola pública, mas fácil fica converter os pobres. Dê uma educação de qualidade com um bom nível cultural para as pessoas, e você vai estar tirando o emprego de muito pastor vigarista por aí, essa é a triste verdade.

Eles não são simplesmente inimigos das histórias em quadrinhos. Eles são inimigos da cultura, do conhecimento, como um todo. Afinal, como Oscar Wilde já dizia: "Nada causa mais ódio a ignorância do que a inteligência alheia".

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Chiclete com Banana e Piratas do Tietê nas livrarias

Antes tarde do que nunca, acho melhor comentar sobre o lançamento da "coleção definitiva" dos Piratas do Tietê, lançada meses atrás pela editora Devir. Em três luxuosos volumes de capa dura, a editora reuniu TODAS as histórias dos personagens mais conhecidos do cartunista LAERTE.

O quadrinho brasileiro sempre se destacou mais no campo do humor. Seja no humor infantil, com a Turma da Monica, um sucesso nacional que eclipsou vários concorrentes estrangeiros como a própria Disney, seja no humor adulto, que teve seu auge nos anos 80 com a "santíssima trindade" do quadrinho escrachado nacional: Angeli, Laerte e Glauco (que chegaram até mesmo a fazer uma série em conjunto, com eles mesmos como personagens: Los Tres Amigos).

Não acompanhava a revista CHICLETE COM BANANA quando ela reinava nas bancas. Muito criança ainda, eu só queria saber de super-heróis, no final dos anos 80. Sei que alguns adolescentes acompanhavam a revista e adoravam os "punks" desenhados pelo Angeli. Mas o quadrinho de humor não me interessava muito na época, e só comecei a ser fisgado pelas tiras do jornal, principalmente a Folha de São Paulo, e as aventuras de uma página de "Los Tres Amigos" no Folhateen.

Lá por 1992 se falava muito numa revista chamada "Piratas do Tietê", derivada da Chiclete com Banana. Estava ganhando tudo que é prêmio e eu começava a ler mais do que apenas comics. Comprei uma edição do Piratas do Tietê e achei legal. Claro que eu não a trocaria pelos meus gibis de super-herói, e só comprei porque tinha algum dinheiro sobrando. Eu ainda não tinha visão ou gosto pra saber quando um cartum é bem desenhado ou não. Pra mim o desenho cartunesco não me atraia, embora Angeli e Laerte fossem realmente os dois que mais me contentavam.

Acho que eu precisava amadurecer um pouco pra entender a graça das piadas, e foi o que aconteceu quando me torneio adolescente e mais "rock'n roll". Mas daí já era tarde: Chiclete com Banana e Piratas do Tietê haviam sido canceladas na enésima crise economica do país. A maioria dos jovens, como eu, preferiam o material enlatado, e a nossa indiferença varreu o quadrinho nacional das bancas (felizmente as crianças não pensavam assim e sempre prestigiaram a Turma da Mônica).

Dali então o meu contato com Chiclete com Banana e os Piratas do Tietê foram nos sebos, onde eu achava as edições que catava. De repente eu descobri uma revista que era legal reler depois de um tempo, quando já havia esquecido de algumas piadas, e também do tipo para "ler em conjunto", quando tem aquelas festinhas pequenas, ao som de rock'n roll e já embalado na birita.

Os piratas são uma série que apareceu inicialmente na Chiclete com banana, revista capitaneada pelo Angeli, mas que tinha a presença de outros cartunistas, como o Glauco. O sucesso do Laerte acabou levando a criação da revista dos Piratas, onde apareciam também outras séries do cartunista, como O Condomínio, Os Gatos, etc.

Eu aprendi a gostar antes do Laerte do que do Angeli. Eu comecei a gostar do Laerte lá pelos 15 anos, do Angeli só lá pelos 17. Acho que o Angeli era muito cínico pra um garoto idealista como eu era, e o Laerte era um cara que descobri anos depois que veio do jornalismo sindical - engraçado que eu nem sabia que eu e Laerte dividiamos a mesma ideologia, eu era fã dele sem saber dessas coisas, ou talvez, isso vazasse no trabalho dele, e acabasse criando essa simpatia.

Mas o Laerte também é um cara mais acessível pros pré-adolescentes, vide o sucesso dele com personagens infanto-juvenis como o Overman e a Suriá, que viraram até desenho animado. Ele até tentou fazer um desenho dos Piratas do Tietê, mas eles são meio escrotos demais, estupradores, saqueadores e farristas. Claro, perfeito pra jovens moleques como alguma pré-disposição a rebeldia. Mas as emissoras de TV não pensam assim.

Assim com os Piratas ganharam essa coleção, a Devir também lançou junto com a Nova Samba uma "antologia" com o melhor da revista Chiclete com Banana, em dezesseis edições, de 52 paginas cada. O unico senão fica por conta do formato, porque Piratas do Tietê vem como um icone pra colecionador, pra fazer parte da biblioteca mesmo. A Antologia da Chiclete veio como qualquer gibi.

Parte desse problema foi sanado com o lançamento de uma caixa com as oito primeiras edições. Isso quer dizer que devem lançar uma caixa com as oito edições restantes. A caixa meio que compensa a falta de encadernação, pelo menos pra guardar na estante. A vantagem é que dá pra matar a saudade do formato gibi, como a Chiclete era lançada outrora.

Ainda assim, Angeli também merecia uma "coleção definitiva", como volumes em capa duras de suas séries: Wood&Stock, Os Skrotinhos, Rê Bordosa, Ralah Riccota, Bibelô, Bob Cuspe, etc.

A riqueza da nona arte é formada por artistas dos mais diversos estilos e temáticas. O humor também merece ser levado a sério pelos entusiastas de histórias em quadrinhos, até porque se alguém quiser procurar realmente o que de melhor os brasileiros tem a oferecer para a nona arte, isso está nos gibis de humor dos anos 80. Angeli e Laerte são grandes mestres do quadrinho brasileiro e merecem até mais badalação do que muito "peão de obra" que só desenha pras editoras americanas. Mais do que desenhar (e bem) esses caras CRIARAM personagens e eram (são) muito bons no que faziam (fazem): humor.