
Algo que sempre me intrigou foi a ignorância dos brasileiros em relação aos seus vizinhos. Tipo, se você for a Inglaterra, descobrirá que eles sabem qual é a último moda em Paris. Na França os jornais destacam tudo que acontece na União Européia. Algo que faz sucesso na Bélgica, alcançará a França, Luxemburgo e Suíça.
Mesmo os Estados Unidos, conhecidos por sua arrogância umbiguista, estão cientes das culturas mexicanas e canadenses, principalmente graças a migração, é verdade, mas não vamos esquecer que muitos artistas populares como Neil Young e Celine Dion são do Canadá. E que o super-herói Wolverine, aliás, é canadense. Isso chega a ser irônico pra quem mora por lá, porque pros norte-americanos é como a Argentina pra nós: os estadunidenses contam piadas menosprezando seus vizinhos, e sempre se pretendem maiores e superiores.
Nós temos uma relação ainda mais complicada com a Argentina, principalmente graças a uma herança herdada da ditadura militar que nunca foi debatida seriamente em público. Nos anos 60 e 70, os militares brasileiros e argentinos entraram numas de querer “dominar o continente”. Ambos queriam ser o país que ditaria os rumos políticos da América do Sul, sobre as benções dos Estados Unidos.
Quando a Guerra das Malvinas estourou, por exemplo, ao invés de ficarmos do lado da Argentina, nossos milicos e a mídia brazuca deram opinião favorável a Inglaterra. A imprensa, aliás, ajudou muito nesse ideário de ódio aos argentinos, aproveitando a nossa rivalidade futebolística. Ao contrário do que todo mundo pensa, não foi desde sempre que Brasil e Argentina foram grandes rivais no futebol. Até os anos 60, nosso “arqui-inimigo” era o Uruguai.
Mas nos anos 70 o futebol uruguaio foi perdendo força e o Argentino crescendo. Então los hermanos começaram a ganhar partidas em cima da seleção canarinho, o que desperta, é claro, sempre um tipo de rancor. Pra piorar, nos 24 terríveis anos em que o Brasil ficou sem ganhar uma Copa do Mundo (1970-1994) tivemos que engolir dois títulos mundiais da Argentina (1978 e 1986).
O mais engraçado de tudo é que o ressentimento não é tão recíproco. Nós do litoral sabemos: todos os anos milhares de argentinos vem para nossas praias, porque adoram passar o verão no Brasil. Ocasião em que podemos conhecê-los e inclusive sanar uma série de preconceitos, como por exemplo o mito de que são arrogantes. Os americanos falam a mesma coisa dos canadenses, aliás. Isso acontece porque até poucos anos atrás, os argentinos eram o povo da América do Sul com maior inserção no ensino superior. Ou seja, uma porcentagem maior da população tinha acesso as universidades, e não por acaso, a Argentina era o país que mais consumia livros também. Sim, os argentinos eram mais cultos que nós, e isso não é suposição, isso é estatística. E é normal todo cara culto ser confundido com arrogante – eu particularmente vivo na pele esse preconceito, por isso entendo muito bem os argentinos.
Um exemplo da cultura dos argentinos é o seguinte: eles adoram música brasileira. E não estou falando da Xuxa e dos Paralamas do Sucesso. Nomes como Tom Jobim e Caetano Veloso são amados por aquelas bandas. Agora, eu me pergunto, o que sabemos da música argentina? Nada, nadica de nada. E antes que o brasileiro ufanista estufe o peito e diga que se o argentino escuta música brasileira nas rádios deles, é nos não escutamos música argentina por aqui, é porque nossa música de fato é melhor.
Em primeiro lugar, não é uma questão de comparar graus de excelência. Vamos estabelecer que a música brasileira realmente é melhor, para evitar polêmicas. Ainda assim, você acha que o pior da música brasileira é melhor do que o que melhor da música argentina? Daí já é fanatismo. Os argentinos tem muita música legal e dos mais diferentes gêneros capazes de agradar qualquer um. E se há brasileiros melhores, ainda assim, esses argentinos são melhores do que muita coisa deplorável que anda aparecendo por aqui – as recentes bandas de rock-emo, por exemplo.
Meu primeiro contato com a música argentina foi através do Paralamas do Sucesso – grupo de considerável sucesso na Argentina, aliás. Em contato com a “cena” hermana, os Paralamas passaram a ouvir e reproduzir o som de lá também. Isso se configurou em versões em português de hits da música pop argentina, como Trac-Trac (de Fito Paez), Lourinha Bombril (de los pericos), De Musica Ligera (do Soda Stereo) e Vienes 3m (do Seru Giran).
Outro grupo que me apresentou o rock argentino foram os gaúchos do Nenhum de Nós. O Rio Grande do Sul faz fronteira com o país portenho, e por isso é normal você encontrar bastante discos de música argentinas nas lojas de lá. No oeste de estado, se você tiver um bom rádio sintoniza as estações argentinas, aliás. A banda gravou versões em português de Polaroid de La Locura Estraordinaria (Fito Paez) e Rezo por vos (Seru Giran).
Esse tal de Fito Paez
Assim, eu já tinha ouvido falar de Fito Paez, quando ele fez um extraordinário show no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2002. Lá estava eu, no meio de uma multidão de brasileiros, argentinos, chilenos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, peruanos e outros povos da América Latina. A maioria dos meus amigos não sabia quem era Fito, mas a partir do momento em que o som começou, ficou claro que se nós brasileiros estávamos por fora, o resto da América do Sul não. O resto do MERCOSUL pulava alopradamente a cada hit. Eles sabiam de cor cada letra. Estava claro que Fito, não só no seu país, era um astro. Devo dizer que até hoje há apenas dois shows que me impressionaram de verdade, justamente por serem feitos por músicos que eu pouco conhecia: Fito Paez e Pedro Luís e a parede (este tive a oportunidade de ver no Rio, um ano antes). Quando você não conhece nenhuma música, e ainda assim o som te impressiona, acho que estamos diante de provas incontestáveis de qualidade.
Mal cheguei a Florianópolis, comprei “Rey Sol”, meu primeiro disco do Fito. Hoje sei que é considerado um álbum menor dele, mas por um bom tempo escutava direto. As letras eram muito fortes e realmente queriam dizer algo, ao contrário do cenário da música brasileira naquele início do século XXI, que começava a se tornar cada vez mais estéril. A seguir na minha lista de compras vieram ABRE PAEZ (o disco mais político de Fito) e EUFORIA, uma espécie de acústico com releituras de sucessos do cantor.
Se alguém quiser começar a ouvir Fito Paez, eu recomendaria EUFORIA, aliás. É um disco fácil, acessível, melodioso e que apresenta um panorama da obra dele, com algumas das minhas músicas preferidas, como Ciudad de Los Pobres Corazones, Cadaver Exquisito, 11 y 6, Tumbas de La Gloria e Mariposa Tecknicolor. Outro disco excelente pra começar a ouvir Fito é “El amor depues del amor”, álbum que até hoje é o disco mais vendido da história do rock argentino! Recentemente o Paralamas lançou uma versão da faixa título, que eu particularmente achei decepcionante, e que não tem metade da força do original (principalmente na questão da letra, que Herbert transformou em algo romântico e pessoal, e não romântico panfletário como é o texto original de Fito).
A discografia de Fito Paez é bem extensa, é claro que se você se torna fã acaba tendo ouvir todos – o que naturalmente acabei fazendo. O meu disco preferido acabou virando o Tecer Mundo, e não foi com surpresa que descobri que muitos fãs argentinos de Fito com minha opinião, apesar de não estar nem entre os álbuns que mais venderam, nem entrar na lista dos preferidos pela imprensa. É como o disco Legião Urbana V, que é o preferido de um verdadeiro “legionário”, apesar de ser ignorado tanto pela crítica como pelo “povão”. Algo que só os fãs arraigados entendem e apreciam.
SODA STEREO
O capítulo dois de nossa saga começa com uma música bem conhecida dos brasileiros: De Musica Ligera, que é mais conhecida por aqui como “A sua maneira”, a versão bastarda gravada pelo Capital Inicial e que estourou nas rádios certa época. Devo dizer que sempre achei a versão dos brazilienses travada (tirei essa expressão do Herbert Vianna, que achou a mesma coisa, eheh) e nunca fiz muita questão de ouvir.
Isso se deve porque anos antes, sem o mesmo impacto, os Paralamas já haviam feito uma versão no excelente álbum Nove Luas, e ao contrário da crença sobre quem é mais “rock’n roll”, pode parecer irônico, mas a versão dos Paralamas é mais pesada! E próxima do original, devo admitir, tanto nos arranjos, quanto nas letras.
De Musica Ligera é um dos maiores clássicos não só do rock argentino, mas do rock latino. Nos anos 80, enquanto nós vivíamos na santa ignorância de curtir senão as bandas brasileiras, apenas as bandas norte-americanas e inglesas, um grupo chamado SODA STEREO levava multidões para shows em estádios de futebol na Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia e por aí afora. Um trio de músicos virtuosos, o Soda Stereo assim como o Paralamas era muito influenciado pelo The Police, isso fica claro nos primeiros álbuns deles. No entanto, “De Musica Ligera”, é uma canção tardia, já do começo dos anos 90, muito influenciada pelo grunge, que despontava naquela época nos EUA.
Oficialmente o Soda Stereo se separou nos anos 90, com o guitarrista e vocalista Gustavo Cerati embarcando numa competente (mas não badalada) carreira solo. Ainda assim o grupo ainda se reúne de vez em sempre para gravar um álbum ao vivo e faturar umas verdinhas. E se Fito tem o disco mais vendido, na soma geral, o Soda ganha, como a banda que mais vende (até hoje) na Argentina, assim como a que tem o recorde de lotação nos shows. Assim como foi a que mais sucesso internacional teve até hoje.
A discografia da banda é menos extensa, com seis álbuns em estúdio, e vários ao vivo (do qual eu destaco “el ultimo concierto”, gravado em 1997, quando a banda anunciou sua separação, exatamente no auge e dá pra sentir a devoção dos fãs ao conjunto. Eu recomendaria, pra começar, a compilação em dois álbuns, “Chau Soda”, que traz as músicas mais conhecidas e importantes. Entre elas, De Musica Ligera, no seu esplendor e peso original. Fazem o Capital comer poeira!
CHARLY GARCIA
Quando eu ouvi “Rezo por vos” no disco “Paz & Amor” do Nenhum de Nós, sabia que precisa ir atrás de mais coisas desse tal “Charly Garcia”, que assinava a canção como compositor. Logo descobri que se tratava de uma música de um grupo chamado “Seru Giran”, que também teve a honra de ser o mais popular da Argentina no final dos anos 70 – o Soda Stereo seriam os seus sucessores, por assim dizer.
Charly Garcia é um multi-instrumentista, uma espécie de George Harrison da música portenha. Ele começou a chamar a atenção no ínicio dos anos 70, com uma banda pós-hippie chamada “Sui Generis”. Basicamente é som daquela época, e que proporcionaram hinos de toda uma geração de bichos-grilo, tal com o Raul Seixas fazia a mesma coisa aqui no Brasil. Charly se destaca principalmente no campo da invenção, tendo sido chamado de “O Frank Zappa portenho”, também por sua personalidade controversa, com arroubos de arrogância e excentricidade.
O Sui Generis gravou três discos, dos quais eu recomendo na verdade a coletânea “Antologia’, lançada em 1995. Se você gostar, então vá atrás dos álbuns originais. Vale lembrar que ao contrário dos roqueiros do Soda Stereo, o som da banda é bastante influenciado pela música popular argentina, e um dos méritos de Garcia é aprofundar esse sincretismo entre folclore (como eles chamam a música natal deles) e o pop-rock.
Graças a personalidade Garcia, o conjunto se dissolveu, e após um álbum solo sem muita repercussão (La Maquina de Hacer Pajaros), Charly se juntou a outros três renomados músicos argentinos, e assim criaram o SERU GIRAN. A repercussão da reunião inusitada foi tal que a mídia portenha os chamou de “Beatles argentinos” (aliás, não foi a primeira vez que a imprensa argentina comparava um dos seus aos Beatles, anos antes havia o Almendra, mas chego lá quando falar desta banda). Mas até aí a nossa imprensa dos anos 70 também chamou Os Doces Bárbaros de Beatles brasileiros, né?
O Seru Giran foi um sucesso de público e crítica, e produziu clássicos do rock argentino, como Seminare, Eiti Leda, Viernes 3 am, Noche de perros, Peperina, El La vereda del Sol e Cuanto Tiempo mas levara. A fase clássica do grupo teve apenas quatro álbuns, todos ótimos, elogiados e de sucesso. É o tipo de conjunto que vale a pena ir direto pra discografia propriamente dita, dispensando as coletâneas.
Com tantos compositores e ótimos músicos, é claro que os egos eram tão volumosos quanto o talento, e daí com as brigas constantes, essa banda dissolveu também. Mas ao contrário do sucesso restrito do Sui Generis, o Seru Giran foi um supergrupo, que colocou o nome de Charly em muito exposição, e providenciou que ele finalmente tivesse holofotes quando embarcou numa nova tentativa de carreira solo, agora com bastante êxito.
O sucesso não se deveu só devido ao apoio dos órfãos do Seru Giran, mas também pelos discos inspirados que lançou nos anos 80, vários deles cabendo em qualquer lista de melhores discos do rock argentino de todos os tempos.
É o caso de Yendo de La Cama al Living (1982), clics Modernos (83), Piano Bar (84), Parte de La religion (87) e Como conseguir Chicas (89). Mas o primeiro álbum de Charly que ouvi (antes mesmo de conhecer Seru Giran e Sui Generis) foi o acústico MTV lançado em 1995, um bom retrospecto da carreira dele, que mostra o quanto suas composições são melodiosas. Esse álbum traz clássicos como Cerca de La Revolucion (que ganhou uma votação no site rock.com. ar como o rock mais importante da história da Argentina, superando De Musica Ligera, do Soda Stereo), Rezo por Vos, Promesas sobre el bidet, No soy un extraño e a minha preferida, Los Dinosaurios.
Enfim, Charly Garcia é um nome essencial do rock argentino, na verdade, uma verdadeira entidade da música portenha. Até Mercedes Sosa que era grande amiga do músico, chegou a gravar um álbum junto com ele (Alta Fidelidad, 1997). Vários são os interpretes argentinos, tanto do rock quando da música folclórica que gravam e regravam músicas de Garcia, um dos compositores mais gravados daquele país.
LUIS ALBERTO SPINETTA
Na nossa saga em busca do rock argentino, é claro que inevitavelmente apareceria o nome de Luis Alberto Spinetta. A primeira vez que ouvi falar dele, já o ouvi logo de cara: Ele gravou em 1986 um disco em conjunto com Fito Paez, La La La, e como eu explorava a discografia de Fito, o encontro era inevitável.
Outra referência que o colocava na mira era de sua parceria com Charly Garcia na composição de Rezo por Vos, uma das minhas músicas preferidas do louco bicolor (e bipolar, dizem alguns). Então eu tinha que ouvir mais deste tal de Spinetta, já que segundo vários nomes da música argentina, Spinetta era a pedra fundamental do rock Hermano, um dos seus fundadores até.
E assim cheguei ao começo de tudo, do rock argentino propriamente dito. Três bandas são apontadas pela mídia especializada do país como responsáveis pela introdução e popularidade do rock na Argentina: Los Gatos, Manal e Almendra.
Los Gatos tem a mesma importância que a Jovem Guarda por aqui, um som “beat”, dançante, romântico e rockeiro. O Manal era uma banda mais pesada, comparado ao Cream, um trio que antes de tudo tocava blues, e chegou ao rock porque era moda. Mas o mais importante foi o Almendra, que chegaram a ser chamados de “Os Beatles portenhos” (eu não disse?) antes de qualquer outra banda por lá.
Por que eles eram os Beatles? Ok, se trata de um quarteto. Os quatro cantam, os quatro compõem. E mais importante, não há dúvida ao ouvir suas músicas que foram muito influenciados pelo quarteto de Liverpool.
O Almendra assim foi montado realmente até com uma ambição de ser os Beatles da Argentina! Isso não estava só na música, também nas letras, o Almendra trouxe um lirismo que não havia nem com Los Gatos ou com Manal. Eram acima de tudo CANÇÕES, aquele tipo de música pra ouvir, curtir e refletir, não apenas pular (e na maioria das vezes baladas que não estimulavam a isso mesmo). É sintomático que o maior hit do Almendra seja uma canção só com dois violões e voz, “Muchacha ojos de papel”, outro clássico indispensável da música argentina.
A minha preferida, aliás, é “Plegaria para um Nino Dormido”, uma balada roqueira com uma pitada de tango. Spinetta tem um grande renome na cena musical argentina justamente por buscar muito essa fusão da música popular argentina com o rock’n roll, principalmente com seu conjunto de “tango elétrico”, o Spinetta Jade, já nos anos 80.
Mas Luis Alberto Spinetta começou com o pé firme no rock, e o Almendra era uma banda roqueira, capaz de rapidamente conquistar não fãs, mas verdadeiros fiéis, que transformavam suas músicas em hinos para toda a vida. Infelizmente o sonho acabou ainda mais cedo para os quatro rapazes de Buenos Aires do que durou para o quarteto similar de Liverpool. Após cinco compactos (aqueles disquinhos com duas músicas, quem lembra deles? E dois álbuns, (o segundo duplo, aliás), o conjunto se dispersou, por causa, é claro dos conflitos de ego. É, a vida não deve ser fácil num conjunto onde todo mundo compõe e canta, e assim um quer sempre colocar mais música dos que os outros.
Mas a curta vida do Almendra foi suficiente pra virar lenda, e não por acaso seu disco de estréia "Almendra” está em 6º lugar numa lista feita pela Rolling Stone argentina, com “Os 100 melhores discos do rock argentino”. Almendra II, o disco duplo, está na 29ª posição. Aliás, sou muito grato a essa matéria da Rolling Stone, porque me serve de guia para ir atrás das coisas.
Ah, quer saber qual é o 1º lugar, o disco mais importante do rock argentino segundo a Rolling Stone? ARTAUD, de autoria dele mesmo, LUIS ALBERTO SPINETTA, o vocalista e guitarrista do Almendra. Quando o conjunto acabou, Spinetta logo formou uma nova banda, também mítica no rock Argentino: o Pescado Rabioso, desta vez um “Power trio”.
Spinetta foi atrás de músicos bons, já com algum renome ele poderia se dar ao luxo de escolher com quem tocar. O problema, novamente foi o confronto de egos. O conjunto durou pouco, e produziu dois álbuns de bastante sucesso (Pescado 2 está na 19ª posição dessa lista dos 100 albuns da Rolling Stone). Com a banda já dissolvida, mas com contrato por cumprir, Spinetta gravou ARTAUD, que apesar de levar na capa o nome da banda Pescado Rabioso, se trata na verdade de um disco solo de Spinetta. E quem poderia adivinhar que mais de 30 anos depois (o disco foi lançado em 73), seria este o vencedor numa votação entre 140 jurados entre artistas, jornalistas e produtores musicais?
- e antes que alguém me pergunte, o 2º colocado na lista é Clics Modernos, do citado Charly Garcia; em terceiro, o primeiro disco do Manal, a banda de blues-rock que falei há pouco; e em quarto, Oktubre, dos “Redonditos de Ricota”, banda que também adoro e que falarei em outra ocasião.
Com o fim do Pescado Rabioso, e o sucesso de Artaud, no entanto, Luis Alberto Spinetta não estava seguro para embarcar em carreira solo. Ele era um cara de banda, e sempre quisera ter um conjunto de rock. E assim nasceu outra banda mítica por lá, INVISIBLE, onde um Spinetta mais experimentalista pode evoluir ainda mais sua música. O quarteto teve quatro álbuns e ocupou a maior parte dos anos 70 para Spinetta.
No começo dos anos 80, o Almendra meio que fez as pazes, com objetivos comerciais, é claro, e assim puderam gravar finalmente um disco ao vivo, para delírio dos seguidores saudosistas. O êxito deu origem a mais um álbum de estúdio, e outro ao vivo. Essa fase do grupo é considerada comercial pela crítica especializada e não se compara ao frescor e juventude do inicio do grupo, no final dos anos 60.
Nos anos 80, Spinetta se dividiu entre uma carreira solo relutante – produzindo o excelente álbum Kamikaze, em 1982 – e o já falado Spinetta Jade. Ter esses dois projetos paralelos se explica no fato de os discos solos de Spinetta serem mais “rockeiros”, e o Spinetta Jade ser um conjunto de músicos mostrando que sabem tocar, fazendo o seu “tango elétrico”. De vez em quando o Almendra ainda volta pra arrancar uma grana dos fãs, vocês sabem como é. Seria a mesma coisa com os Beatles, se John Lennon não tivesse morrido...