Domingo, Maio 01, 2011

Uma releitura das Viagens de Gulliver

Ano passado a editora Cia das Letras – a minha preferida – lançou uma coleção em parceria com a famosa empresa norte-americana, a Penguin Books, conhecida como a maior editora de clássicos do mundo.

Em suma, o selo Penguin vai abrigar os livros clássicos lançados pela Companhia doravante. Eles vem com o mesmo design da editora americana e vários “extras” como prefácios, introdução, notas, posfácios, ilustrações, etc.

Se constitui, assim, numa excelente desculpa para quem, como eu, gosta de reler livros. Resolvi começar pelas Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, que eu havia lido quando muito jovem. Além de uma nova tradução, me atraiu o prefácio de George Orwell (autor de 1984 e A revolução dos Bichos), e o estudo de texto do editor norte-americano Robert DeMaria Jr.

Ironicamente, decepcionei com o prefácio de Orwell, que me pareceu pendante, ao gastar mais de 50 páginas para criticar o autor e o livro só para terminar dizendo que era um dos seus preferidos, num exercício de orgulhosa magnanimidade do tipo “a maior prova que eu sou democrático é que eu adoro o que discordo”. Acredito que o grande problema de Orwell com Swift é que no fundo o autor de 1984 era um otimista. Bem diferente de Swift, que criou essa obra prima da amargura e da sátira.

Pra quem ficou surpreso com essa minha afirmação, então nunca deve ter lido as Viagens de Gulliver, tendo como lembrança apenas os filmes ou as adaptações literários infanto-juvenis sobre as aventuras de um naufrago numa ilha de cidadãos em miniaturas. Chega a ser irônico –embora não surpreendente – que uma das afirmações de Swift, de que o ser humano transforma geralmente o que é sábio em algo superficial acabe se realizando com o livro dele. Isso se deve a uma leitura errada da saga de Gulliver, prestando mais atenção na fantasia do que na mensagem por trás dela.

As Viagens de Gulliver é uma sátira, gênero literário hoje em desuso, mas ainda com alguma força no cinema – onde evidentemente se contenta em produzir bobagens descerebradas. Literariamente falando, a sátira é um instrumento onde se faz uma crítica – ou críticas – a um estado de coisas – ou pessoas – de forma travestida, ou seja, como se aquilo fosse uma ficção, uma fantasia. O gênero é muito usado por autores que viviam sobre o jugo de sistemas autoritários, onde o livre pensamento poderia ser condenado com a prisão e com a morte. Então se dava um jeito de falar a verdade escrevendo histórias alegadamente “fictícias”, mas que para os mais perspicazes trariam uma mensagem sobre a vida real.

Jonathan Swift era um irlandês numa época em que a Irlanda vivia sobre jugo da Inglaterra, uma monarquia que mesmo no início do seu sistema parlamentar ainda continha muito autoritarismo e violência para os seus críticos. Ele ganhou fama escrevendo diversos panfletos criticando questões políticas pontuais da época, no entanto, só escreveu algo de fôlego – e capaz de superar o seu tempo – com as Viagens de Gulliver. Se trata de um supra-sumo onde o amargurado autor ataca a sociedade inglesa da época, o governo, os políticos, as religiões e deixando seu ataque final para a própria raça humana em si.

Ele usa o expediente do viajante que visita países e povos fantásticos para usá-los como paralelo aos ingleses, ou então na comparação, para mostrar como os europeus eram mais atrasados e ignorantes do que se supunham.

O livro é dividido em quatro partes. Na primeira, ele visita Lilipute, e geralmente as adaptações param somente neste ponto, pela “graça” dos pequenos habitantes de doze centímetros onde Gulliver é um gigante. O motivo da guerra de Lilipute com seus vizinhos sempre é interpretado como simplesmente engraçado – principalmente pelo telespectador das adaptações cinematográficas, que sempre tem um viés infantil – mas por trás da alegoria de onde se deve quebrar um ovo, está justamente uma sátira muito bem montada para criticar e rir das polêmicas entre protestantes e católicos, em guerra nos séculos XVI e XVII.

O valor de fazer uma releitura, agora sabendo melhor sobre a história da Inglaterra e França, torna muito mais claro que Lilipute e seu vizinho são na verdade esses dois países. Swift retrata os cidadãos em miniatura para que o leitor (primariamente inglês) reflita como os povos podem ser mais pequenos do que imaginam. De fato, o rei de lilipute se declara o “maior e mais poderoso homem do universo”, mas não passa de uma criaturinha que Gulliver poderia esmagar com uma das mãos.

Na segunda parte do livro, o quadro se inverte, e agora Gulliver é que a pessoa em miniatura em uma terra de gigantes. Essa alegoria novamente é pra deixar ainda mais claro como os ingleses são pequenos, pra quem não entendeu a mensagem na primeira parte. Porque o povo gigante, ao contrario dos liliputianos, tem muito mais virtude e razão, e acham ridículas as querelas dos povos pequenos conforme Gulliver lhes relata a vida na Europa.

Na terceira parte, o viajante visita pelo menos três países, pequenas ilhas próximas entre si, no Oceano Pacífico. Em Laputa, Swift faz uma sátira para a afetação da ciência sem objetivos, do pensar pelo pensar; Na ilha de Glubbdidrib, Gulliver tem oportunidade de encontrar com fantasmas de grandes figuras históricas, e assim especular o quanto conhecemos da História oficial é verdadeiro ou não – essa passagem aliás é uma crítica aos historiadores da época, que louvavam os poderosos, e com seus registros mudavam a verdade dos fatos; Em Luggnag, o viajante se defronta com a maldição daqueles que continuam vivendo mesmo quando isso significa uma vida eterna prolongada cheia de sofrimentos e doenças.

Por fim, temos a quarta parte, aquela que Orwell entra no senso comum dizer que é a “pior”, e meu grande motivo de contestação, porque para mim é justamente a melhor parte do livro. Vocês nunca verão a quarta parte adaptada na televisão, em filmes ou livros infantis. Porque a quarta parte é um ataque a raça humana.

Muito antes de Charles Darwin ter sequer nascido, Swift já admite que o ser humano é um animal, como qualquer outro, e para aqueles que acreditam que se diferencia por ser “racional”, ele se dedica aqui a desmistificar essa opinião. O viajante Gulliver vai parar num país aonde os papéis de senhor e besta estão invertidos: Os seres mais sábios são uma raça descendente dos cavalos, os houyhnhnms,enquanto os humanos não passam de yahoos, a mais suja e abjeta raça de animais que já habitou a terra.

Enquanto os cavalos são puros e superiores no seu modo de vida, jamais se invejando, brigando, competindo ou mesmo mentindo – conceitos que nem mesmo existem nos vocabulários deles - os vícios dos “yahoos” mostram um bando de animais sujos que não sabem se controlar sexualmente; acreditam em crendices sem explicação; respondem sempre aos sentimentos e instintos mais baixos; não conseguem se contentar com o que tem e não tem o menor espírito de solidariedade; pelo contrário, comumente se atacam entre si, e por nada.

Gulliver tenta provar aos houyhnhnms que não é um Yahoo, mas a medida que conta a história e o modo de vida dos brancos europeus, vai ficando mais claro para os sábios cavalos que os humanos e os yahoos são a mesma espécie. Que pior, os humanos usaram a pouca inteligência extra que tem em relação aos símios para aperfeiçoar as formas de roubar, machucar e matar seus semelhantes – e na concepção de Swift, não existem ladrões mais eficientes, nem mais ávidos, ou assassinos mais cruéis, do que os governos e os juízes.

O autor não perdoa ninguém: governantes, juízes, advogados, jornalistas, religiosos, eleitores, todos, mas todos são colocados sobre uma lupa e friamente desnudados naquela ilha onde o ser humano se encontra sobre o seu estado animal. E assim a suposta evolução, ou o conceito de que o ser humano haveria de ser uma criatura “superior” criada sobre “forma divina”, cai por terra diante das evidências.

Evidências tão gritantes, que a quarta parte do livro é até hoje ignorada, ou então, quando um autor como Orwell tem que comentar sobre ela, faz o mais fácil e a crítica, como forma de fazer com que o leitor, ao ler esta passagem,a leia sobre os olhos dele, e não com os seus próprios. Então é patente como o prefacista não chama atenção para o fato de Swift criticar a colonização da América e denunciar os crimes ali praticados em nome das coroas, coisa raríssima na intelectualidade européia da época. Talvez porque Orwell acredite no fundo na missão “civilizatória” do homem branco europeu nas Américas – e na África – e portanto, os yahoos sejam uma incomoda opinião de que ao invés de civilizados e racionais, o ser humano não é tão superior quanto se pensa.

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