Segunda-feira, Junho 29, 2009

DC/Vertigo também na telinha: ALVO HUMANO


Além do filme vindouro de The Losers (Os Perdedores), outra série da Vertigo (o selo "adulto" da DC Comics) ganha adaptação com atores de carne e osso em 2010, só que não no cinema, e sim na televisão.

Human Targe (Alvo Humano) é a nova série da Fox, com estréia marcada para 17 de janeiro do ano que vem. O programa irá mostrar as aventuras do detetive e guarda-costas Christopher Chance, um sujeito especializado em se disfarçar de pessoas que estão ameaçadas de morte, se transformando num verdadeiro "alvo humano".

O personagem é filhote do mesmo cara que criou Wolverine e o Monstro do Pântano, LEIN WEIN. Inicialmente suas histórias eram publicadas nas revistas Action Comics, Detective Comics e Brave and the Bold.

Não é a primeira vez que ele ganha uma adaptação para a TV, já no início dos anos 90 chegaram a filmar um piloto (o episódio teste para ver se um programa será produzido ou não), mas ficou só nisso.

De lá pra cá, o personagem foi retomado no final dos anos 90 pelo escritor Peter Milligan, e estreiou finalmente sua própria revista pelo selo Vertigo da DC Comics, com histórias de conteúdo "mais maduro".

É essa a versão que agora irá ganhar sua vez na televisão, com o ator Mark Valley no papel de Christopher Chance, o Alvo Humano. Completando o elenco estão Jackie Earle Haley e Chi McBride, como assistentes do herói.

O personagem infelizmente foi pouco publicado no Brasil. O máximo que ganhou foi um encadernado com a mini-série que deu origem a revista escrita por Peter Milligan, pela extinta editora Opera Graphica.

Domingo, Junho 28, 2009

CHE, por Steven Soderbergh: dê um jeito de assistir


Eu acho que a cinebiografia de Che Guevara é algo que esperei desde sempre. Pelo menos desde que li os diários escritos pelo próprio Che ou a biografia do John Lee Anderson, enfim, ali eu só consegui pensar: "Por que não fizeram um filme ainda? Só pode ser por preconceito ideológico mesmo!" Porque mesmo se discordarmos totalmente da ideologia de Ernesto "Che" Guevara, dos seus métodos, mesmo que chegarmos ao ponto de chamá-lo de "assassino" e outros epítetos extremos, ainda assim, sua vida daria um filmão.
Ali tem aventura, romance, drama, violência, crítica social, o confronto de idéias e é claro muita polêmica, o ingrediente essencial para os grandes filmes. Pois finalmente chegou o dia em que um cineasta - e um dos bons - pegou o projeto e resolveu rodar um filme sobre Che: Steven Soderbergh, um diretor que alterna projetos autorais como Traffic, com blockbusters, como "Onze Homens e Um Segredo" com uma desenvoltura impressioante.

No papel de Che, o único que poderia levar o papel a sério: o excelente Benício Del Toro (morria de medo que fosse escalado o canastrão do Antônio Banderas só pra levar a mulherada ao cinema). Mas o filme fez de tudo pra não ser comercial, e talvez por isso tenha sido tão timidamente recebido.

Ao invés de um resumo da vida de Che Guevara, Soderbergh preferiu se focar nos dois episódios mais importantes da vida do guerrilheiro: A revolução cubana e a sua morte na Bolívia. Como resultado temos não um, mas dois filmes, e vale frisar que fica claro que são dois filmes diferentes. O primeiro - Che: O Argentino -, mais "otimista" é uma excelente peça em que dois tempos diferentes se interagem: a guerrilha contra fugência batista na segunda metade dos anos 50 e a visita de Che aos EUA em 1964. Enquanto nos Estados Unidos vemos Che divulgando sua ideologia, vemos o exemplo prático disso através da luta armada em Cuba. As palavras justificam a ação, a ação comprova as palavras.

Já o segundo filme é mais sombrio, e de repente era como se eu assistisse "A Paixão de Jesus Cristo". É uma descrição exata do desastre, sem floreamentos ou poesia. Nós sabemos como vai terminar, e o diretor corajosamente em nenhum momento doura a pilula com alguma mensagem do tipo "valeu a pena".

Pra quem não conhece Che, os filmes são pouco pra lhe justificar o mito, o porque dele estar em tantas camisetas. Pra entender porque quando ele morreu em 1967 já era tão popular, vale lembrar que para muitos ele era considera um "aventureiro politizado", um "guerrilheiro romântico". Antes de Cuba, Che viajou pela América do Sul numa moto, mas isso a maioria já deve saber por causa do filme de Walter Salles. Mas antes de Cuba ele deu uma parada na Guatemala, onde conheceu a primeira esposa, e participou da revolução por lá. E antes da Bolívia, Che esteve no Congo e na Venezuela. Então a vida de Che não se resume a esses dois momentos (Cuba e Bolívia), é muito maior que isso. Mas Soderbergh não fez um fez uma típica cinebiografia resumindo a vida de uma figura histórica.

O estilo que Soderbergh adota é documental. Não há trilha sonora grandiloquente - na verdade, quase não há trilha sonora, não há pirotecnias ou malabarismos nos combates, não há nem mesmo um olhar apaixonado quando Che encontra aquela que seria sua futura esposa, Aleida. Aliás, apenas aqueles que conhecem a biografia de Che sabem quem ela é e o que será, pois o primeiro filme não deixa claro se haverá algum romance entre os dois - embora o convite dela ser sua guia em Havana, mesmo não conhecendo a cidade pode servir de pistas para os mais perpicazes.

Os leitores da Veja que condenavam o filme de antemão por "glamourizar um assassino" ou os fãs incondicionais da ideologia e de Che Guevara que esperavam "um poema épico sobre o maior revolucionário de todos os tempos", vão se decepcionar: é um filme real, antes de tudo. Cada momento, cada cena, tem fundamento através de uma ampla pesquisa. Nada é exagerado, nada é diminuído, tudo é como a História (com H maísculo) atesta.

E talvez por isso esse filme, na minha opinião, não teve nem a divulgação, nem o reconhecimento que merecia. Talvez se tivesse se romantizado, tivesse caprichado em dialogos fictícios, em beijos molhados, em explosões pirotécnicas, não duvido que poderia estar concorrendo a um Oscar.
Ou talvez nem isso adiantasse, e a "indiferença" é ideológica mesmo. Talvez Che não tenha tido muitas chances nos cinemas do Brasil e do mundo porque não foi só a Veja que começou uma campanha antes mesmo do filme sair, para que o menor número de cinemas o colocassem a disposição. Mesmo morto - e mesmo seus métodos terem se revelado insuficientes e ultrapassados - a sombra de Che Guevara assusta muito reacionário por aí.

Talvez porque o mito do Che não se resume a um guerrilheiro da luta armada, mas principalmente a abnegação de quem renuncia do conforto, e da própria vida, pra lutar por seus ideais; De alguém que não consegue ignorar a injustiça alheia, que não consegue ficar indiferente com o sofrimento dos outros. Che pede pra nos envolvermos. E talvez aí mora o perigo para aqueles que pregam a acomodação através dos seus veículos de comunicação: que as pessoas se envolvem, se informe, se IMPORTEM.

Então é preciso chamar Che de assassino. Ao fã de cinema eu pergunto: qual a diferença de Che é de William Wallace, o herói de "Coração Valente"? Você sabia que ele era também um personagem real? Por que algumas revoluções são mais atraentes que outras, mais aceitáveis que outras? Tudo questão de perspectiva e como projetamos essas coisas.

Não é preciso concordar absolutamente com Che, nem compartilhar das suas ideologias. Mas isso não quer dizer que não podemos admirá-los, nem aprender uma coisa ou outra com esse ser humano singular.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

O filme baseado em quadrinhos que ninguém fala


Enquanto ficam especulando quem vão ser os atores e qual é o roteiro de filmes que podem até não sair - como é o caso do Lanterna Verde - ou que não vão sair realmente - como da Liga da Justiça, longe dos olhos da nerdalhada, longe desses boatos entediantes sobre quem vai fazer o papel de quem, há um filme da DC/WARNER que vai estrear no ano que vem, e ninguém fala!

Certo, tem dois filmes - não, eu não me esqueci de JONAH HEX.

Mas quero falar de outro, ignorado pelos leitores de super-heróis, mas agora que ANDY DIGGLE está na Marvel, provavelmente essa turma se interesse.

Afinal a série THE LOSERS, da DC/Vertigo, é considerado o melhor trabalho de Andy Diggle como escritor até agora. Tanto é que virou filme, com estréia JÁ MARCADA para o dia 16 de abril do ano que vem!

O filme tem direção de Sylvain White e o elenco inclui: Jeffrey Dean Morgan, Idris Elba, Chris Evans, Columbus Short, Jason Patric, Zoe Saldana e Oscar Jaenada.

A New Line, um braço da Warner, havia previsto a estreia de A Nightmare on Elm Street (nova versão de A Hora do Pesadelo) na mesma data. Pelo visto, a Warner gostou do resultado das filmagens, porque estão apostando mais alto no filme!

Ao contrário do que parece, The Losers não é uma criação de Andy Diggle, mas uma reformulação de um conceito da DC Comics - portanto proprietária da marca.

Os Perdedores originais eram um grupo de combatentes da Segunda Guerra Mundial, que já haviam fracassado em missões anteriormente. Eles se reunem e decidem que nunca mais vão perder novamente. A série foi publicada em gibis de guerra da DC, nos anos 50 e 60. O grupo foi visto "morrendo" na mini-série Crise nas Infinitas Terras, pra quem tem boa memória.

Diggle reformulou o conceito para uma série da dC/Vertigo, em que ex-agentes secretos que também fracassaram, e são inclusive dados como mortos. Não é uma história de guerra, mas de ação e espionagem.

Com essa adaptação, e do western Jonah Hex, mostra que a Warner está começando a perceber o rico manancial de personagens do qual é proprietária, e que isso não se resume apenas super-heróis, justamente da onde pode vir uma grande sacada, não ficando presa a apenas um genero e uma moda que pode ser passageira.

A DC é proprietária de séries de Ficção Científica (Desafiadores do Desconhecido, Adam Strange), de Terror (Hellblazer, Deadman, Casa dos Mistérios), policial (Questão, Gotham City contra o crime), fantasia (Sandman, Warlord O Guerreiro, Livros da Magia), guerra (Sargento Rock, Falcão Negro), e vários outros que são fusões de gêneros, como o cinematográfico Camelot 3000 (espada, magia, ficção cientifica) e Monstro do Pantano (Fantasia, Ficção Cientifica, Super-Herói, crítica politica).

Isso sem esquecer o material autoral da Vertigo, mas isso depende também da negociação com seus autores, é claro.

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Filmes que ninguém nunca ouviu falar: A CULPA É DO FIDEL


Nos últimos tempos estou tentando recuperar o interesse que já tive por cinema. Teve uma época em que eu era um viciado, assistindo dois ou três filmes por dia. Atualmente, assistir um único filme nem sempre é possível. Nem é pelo tempo. Quando tenho tempo livre, às vezes não tenho paciência pra um filme.

Aonde foi que eu a perdi? Em determinado momento ou eu me tornei muito chato, ou esses filmes se tornaram muito ruins, porque principalmente os filmes norte-americanos dos grandes estúdios, na sua maioria, já deram o que tinha que dar na minha opinião.

Claro, ainda há bons cineastas por lá, e uma ou outra novidade que surge, mas a maioria é tão mais do mesmo, que me sinto perdendo tempo vendo filmes que sei como vão acabar.

No meio disso tudo, percebo como aqui no Brasil nós ficamos reféns da produção norte-americana. Como em qualquer lugar do mundo, há filmes europeus bons e ruins. A questão é que todos eles demoram pra chegar aqui. É o caso de LA FAUTE À FIDEL (A CULPA É DO FIDEL), da então estreante Julie Gravas, sim, o sobrenome não engana, ela é filha do homem, Costa-Gravas.

O filme é de 2006, mas só chegou aqui em 2008. E eu só assisti em 2009, por pura falta de informação, você não acha o filme facilmente nas locadoras. Claro, é um filme Frances. Como eu disse, somos reféns do cinema americano.

Não é um filme extraordinário, fantástico, nem qualquer superlativo do gênero que as pessoas usam pra elogiar alguma coisa. É um filme simples, simplíssimo e honesto, mas justamente por ser tão distante do hiper-caro-ultra-maravilhoso cinema de Hollywood, eu gostei a beça do que vi.

Não sou lá muito exigente, confesso. Tudo que peço de um filme é que depois de 90 minutos ou duas horas, eu não sinta que tenha perdido meu tempo.

Bom, desta vez eu não perdi. A CULPA É DO FIDEL é uma história de infância de uma menina que é filha de militantes comunistas. Criada como pequeno-burguesa, mimada, mas inteligente, ela vê sua vida virar de pernas pro ar quando seus pais decidem que devem colocar suas ideologias em prática. A partir daí vemos as conseqüências na vida da pequena Anna.

Um dos trunfos do filme é que em nenhum momento ele é panfletário sobre nenhum aspecto. Não mostra uma lição de moral da burguesinha Anna de repente ganhar alguma consciência social, nem vai pro outro lado, de achar que os pais dela devem renunciar as suas idéias pra garantir o conforto dos filhos. O que me fez gostar do filme é que esperei, a todo momento, que o filme fosse pra um desses dois lados, da “esquerda” ou “direita”, mas ele não foi. A cineasta foi simplesmente realista, o que me faz pensar se no roteiro não tem algo de auto-biográfico. Pesquisando, descobri que o filme foi baseado num romance, inédito no Brasil, de Domitilia Calamai. Pode ser muito bem a história dela, ou de alguém que ela conheceu.

Na verdade, o ponto que mais me despertou simpatia foi justamente ver aquele casal viver os seus sonhos. Podemos discordar da sua visão de mundo, mas todo mundo tem todo direito de lutar pelo que acredita. Particularmente estou cansado de ver pessoas “se venderem” (ou seja, abrirem mão do que acreditam) em nome do “conforto dos filhos”. Filhos viram uma desculpa perfeita pras pessoas que desistem. Mas o exemplo ético do casal De La Mesa é maior do que qualquer fortuna. Dinheiro todo mundo tem que correr atrás mesmo. O que fazemos e o que somos é que deveria ser a maior herança que deixamos. Não, esse não é o tema do filme, mas são idéias que tive ao assistir.

Mas se você não gosta de filmes “ideológicos”, não se preocupe, isso é apenas o pano de fundo, o verdadeira tema do filme é realmente sobre a velha relação pais/filhos ou melhor pais X filhos. É um filme-família, pra quem está perguntando se apropriado assistir com os pequenos – embora eu já adianto que acho que a maioria das crianças não vão gostar.

A atriz mirim Nina Kervel-Bey está muito bem no papel, num show de interpretação que faz murchar muito dos pretensos “astros mirins” norte-americanos. Nem vou citar brasileiros pra não xingar as pobres crianças, por favor. Quem interpreta sua mãe é Julie Depardieu, sim, a filha do Gerard.

Escrevi demais pra um filme tão simples e tão despretensioso, que espero não estar aumentando as expectativas de ninguém. Pra quem está cansado desses blockbusters grandiosos e épicos do cinemão americano, vale uma conferida.

Quarta-feira, Junho 24, 2009


Uma das razões que não consigo atualizar o blog diariamente ou é pela falta de tempo, ou pela falta de algo interessante pra falar. Como hoje é o primeiro caso, resolvi dar um CtrlC+CtrlV para aqueles que me visitam não ficarem de mão abanando, com a promessa que amanhã publico algo meu por aqui.

Venho acompanhando com o interesse o caso "Will Eisner X Educadores de Direita" que vem acontecendo nas últimas semanas, afinal envolvem duas coisas que entendo, política e história em quadrinhos. A matéria a seguir foi retirada do excelente Blog dos Quadrinhos, e é assinada pelo Paulo Ramos:

MEC defende distribuição de obras de Will Eisner a escolas

A secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar, defendeu o envio de álbuns em quadrinhos do norte-americano Will Eisner a escolas de todo o país.

Segundo Pilar, as bibliotecas escolares devem ser plurais e representar o pensamento contemporâneo. Quanto ao acervo, defende que deve ser supervisionado pela escola.

"A biblioteca da escola não é como uma biblioteca pública qualquer", disse em depoimento à Rádio Bandeirantes, de São Paulo.

"Ela [a biblioteca] tem um profissional que media o acesso dos alunos aos livros, inclusive. Porque as escolas têm crianças de sete, de dez, de 14, de 17, de 18 anos. E ele não pode ter acesso a qualquer livro".

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O depoimento de Pilar é uma resposta à secretária estadual de Educação do Rio Grande do Sul, Mariza Abreu. Esta entende que as obras são inadequadas ao ensino médio.

A secretária ameaçou entrar na Justiça contra o MEC e orientou que as escolas do Estado recolhessem os álbuns de Eisner, como o blog noticiou no domingo.

"É uma linguagem, cenas de sexo explícito... enfim, nós estamos considerando inadequada para o público adolescente", disse à Rádio Bandeirantes.

A decisão dela foi tomada no fim da semana passada e repercutiu em jornais gaúchos.

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"Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço", "O Nome do Jogo" e "O Sonhador", alvos da polêmica, integram a lista de obras do PNBE, do governo federal.

O programa existe desde 1997 e tem o objetivo de formar bibliotecas escolares em todo o país. De 2006 para cá, passou a incluir quadrinhos na relação de obras selecionadas.

Os álbuns de Eisner foram três dos títulos escolhidos para distribuição nas escolas neste ano. A seleção foi feita por um grupo de professores da Federal de Minas Gerais.

"Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço" havia causado polêmica no Paraná e, no início do mês, em São Paulo. Uma vez mais, o caso repercutiu na mídia.

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COMENTÁRIO DO NANO: Eu jamais pensei que alguma obra do Eisner algum dia fosse dar polêmica. Primeiro, ele era politicamente moderado. Talvez até mesmo de direita. Segundo, tem até blog evangélico falando de "obra de demônio", e o Eisner era um cara religioso pra caramba, basta ler suas obras inclusive. Mas como ele era judeu, a intolerância religiosa de alguns realmente enxerga "o diabo" na crença alheia.

Eisner nunca apelou pra violência, pro erotismo, pra qualquer sensacionalismo nas suas obras - muito ao contrário das novelas da Globo que passam na sessão da Tarde. Se tem alguma "nudez" ela nunca é totalmente explícita, é cartunesca, e fazem parte do contexto, porque a obra do Eisner gira em torno das relações humanas. Até aí, existe mais sexo em "clássicos da literatura brasileira" recomendados nas escolas, como o Cortiço, por exemplo.

As bibliotecas estão cheias de coisas "mais pesadas" que Will Eisner, ao acesso de qualquer criança. Quando eu tinha 13 anos, me lembro que a vilã do livro "Os Três Mosqueteiros" me deixava excitado. Ou seja, o que há é novamente o preconceito contra as histórias em quadrinhos, uma nova caça as bruxas, feita por "educadores" politiqueiros que não tem mais o que fazer.

Terça-feira, Junho 23, 2009

INVASÃO SECRETA - A "Queda" dos Mega-Eventos


Desde os anos 80, desde Guerras Secretas e Crise nas Infinitas Terras, os chamados “mega-eventos” se tornaram um Best-Seller fácil para as grandes editoras de histórias em quadrinhos nos Estados Unidos. Independente da qualidade da história, esse tipo de evento sempre vende bem, principalmente pela promessa de que haverá “grandes conseqüências” nas vidas dos personagens que o participam.

Estamos falando de histórias em quadrinhos de super-heróis, verdadeiras novelas sem fim, que são publicadas há décadas. Desde que Stan Lee renovou o gênero nos anos 60, os leitores se levantaram contra qualquer forma de “marasmo” ou “rotina” nessas “novelas”. Ou seja, eles querem que as coisas mudem – paradoxalmente para que continuem as mesmas, é claro. Ou tente fazer uma mudança realmente séria num personagem pra ver quanto tempo ela dura.

A receita do mega-evento é simples: Você tem um grande encontro com todos os super-heróis que a editora publica, e essa turma em geral só se encontra pra enfrentar uma “grande ameaça”; Você tem a história acontecendo em todas, ou na maioria das revistas que a editora publica; Você tem a morte de um ou mais personagens importantes como efeito dramático; e você tem as conseqüências, é claro.

INVASÃO SECRETA foi o “mega-evento” da Marvel em 2008, que agora está sendo publicado no Brasil pela editora Panini. A história gira em torno de uma invasão alienígena – sim, mais uma – essa feita por transmorfos que podem assumir a identidade de qualquer pessoa, na melhor tradição dos filmes B de “ficção científica” dos anos 50.

Seu autor, Brian Michael Bendis, diz ter arquitetado ela desde há uns cinco anos atrás, desde quando assumiu a revista dos Vingadores, a transformando em “New Avengers”. Posteriormente apareceu uma segunda revista, “Might Avengers”. Basicamente são estas revistas, ao lado da mini-série homônima “Secret Invasion”, a espinha dorsal da história.

Bendis já deixou claro há muito tempo que sua história preferida dos Vingadores é “A Guerra Kree-Skrull”, um clássico da Marvel do início dos anos 70. De fato é uma ótima história, que brinca não só com os clichês típicos das invasões alienígenas, mas trazem como cobertura alguma crítica social, com os alienígenas skrulls tomando o lugar de um importante político.

Bendis resolveu reciclar o conceito, indo mais além, com os Skrulls, os aliens mais clássicos da Marvel (eles aparecerem no segundo número da revista do Quarteto Fantástico, em 1963, o título que deu origem a todo o Universo Marvel como o conhecemos) tendo substituídos alguns heróis da terra, e se infiltrado em vários níveis da comunidade super-humana. Depois dessa trabalheira de infiltração e espionagem, chega o Dia D, e eles executam a invasão, achando que anularam os super-heróis.

Geralmente tento evitar contar maiores surpresas de uma história nessas resenhas, mas é difícil criticar Invasão Secreta como se deve sem revelar os detalhes. Assim, se você não gosta de nenhum tipo de adiantamento do que irá acontecer, pare de ler agora mesmo. Se você não liga pra essas coisas, prometo não entregar tudo.

Antes de mais nada, vou começar pelos pontos positivos, já que são poucos. O clima de paranóia entre os heróis, na verdade não só conseqüência da infiltração skrull, mas da própria Guerra Civil, ou seja, Bendis soube aproveitar as celeumas que nasceram do histórico mega-evento de 2006, mostrando que as feridas ainda estão abertas. As palavras duras de Thor ao ex-amigo Homem de Ferro no final da mini-série, apenas sintetizam o que 50% dos super-heróis devem estar se sentindo em relação a Tony Stark. Os heróis desconfiando um dos outros, e isso impedindo sua ação, somente deu espaço pros skrulls chegarem tão longe quanto chegaram.

O segundo ponto positivo foi o final, onde, como eu dizia desde 2006, Stark tava errado, e a história do registro e da Iniciativa iria dar merda, principalmente quando saísse das mãos do latinha. Pois devido ao fracasso do Stark, vemos nascer uma nova ordem mundial, aliás, bem parecida com o mundo real, onde os caras maus são quem mandam no jogo. Sim, porque são os caras maus que salvam a Terra. Nesse ponto, faz sentido que quando os aliens vem no teu pedaço, você pense em defender o que é teu. Como diz Norman Osborn, ex-duende verde: “Saiam do MEU país”. MEU não no sentido patriótico, e sim como ele enxerga aquilo, sua propriedade privada. Da mesma forma O Capuz, o novo rei do crime de Nova York. Os skrulls estão tentando dominar a sua cidade. É claro que sua gangue não irá permitir uma coisa dessas.

Mas já estou me adiantando. Tem tanta coisa ruim que eu quero falar sobre Invasão Secreta que vou ilustrar por pontos:

PORQUE SÓ SUPER-HERÓIS?: Nos textos introdutórios, é dito que os skrulls se infiltraram em vários níveis do governo e da comunidade super-humana, mas somente vemos sobre os super-heróis que na verdade eram skrulls. E cadê os governantes? Do ponto de vista político, eu achei esses skrulls muito burros, por não conseguirem pegar nenhum presidente ou militar norte-americano, russo, francês, inglês, chinês, israelense, indiano ou pasquitânes. Sim, a turma que tem armas nucleares. No arco do Máquina de Combate os skrulls tentam dominar a Russia pra pegar armas nucleares. Espera aí, uma raça que viaja anos-luz por aí, não tem seu próprio armamento nuclear? Fala sério! Os Skrulls fariam muito mais estragos se pegassem um político ou outro e criassem uma guerra “civil” entre os humanos – no caso uma guerra mundial. E antes que alguém diga que isso é difícil, a tecnologia e poderes deles mostraram que se eles realmente quisessem pegar George Bush o fariam, em dois toques.

TAVA TODO MUNDO EM NOVA YORK? – Pra variar, a invasão alienígena aparentemente se concentra em Nova York, então derrotando o contingente de lá, fica mais fácil derrotar todo o resto... O problema é que em várias revistas foi mostrado que não, que a Invasão era mundial. Mas logo após eles derrotarem os skrulls em Nova York, de um estalo, chutaram a bunda deles no espaço, sem maiores problemas.

UM PLANO DE MERDA – Os Skrulls passaram anos infiltrados na Terra, mas não aprenderam nada da nossa política. Claro, a maioria dos humanos também não sabe nada da nossa política, mas os Skrulls no caso queriam nos dominar, então deveriam fazer o dever de casa. Tentar ocupar cada grande centro populacional do mundo com tropas dá trabalho pra caralho. Até os aliens de Independence Day foram mais competentes. Se posicionaram em cada capital do mundo e... Zap. Detonaram com as sedes de governo, tentando matar o maior numero de chefes de estado possível. Os próximos aliens que tentarem invadir a terra devem saber que a melhor forma de fazê-lo é começar matando nossos governantes. Se você destrói a cadeia de comando, a briga da sucessão vai deixar esses humanos idiotas ocupados o suficiente enquanto você metodicamente vai destruindo todos os seus complexos militares. As cidades não são o problema. Os armamentos e quartéis é que são.

IMPORTANTE QUE NÃO É IMPORTANTE – A rainha Skrull assume o lugar da humana que possa “fazer mais estrago”. Quem? A Mulher-Aranha. Fala sério! A pessoa que poderia fazer mais estrago mesmo era Tony Stark ou então Reed Richards. Está certo que Tony Stark fez um bocado de estrago só sendo ele mesmo, pra variar. Não teve uma pessoa realmente “importante” que esses skrulls substituíram. E claro que não poderiam, porque quem gostaria de ver o seu herói preferido ser um skrull. Quem é fã da Mulher-Aranha? Do Jaqueta Amarela?

VOU MATAR ALGUÉM PRA EFEITO DRAMÁTICO – E a grande morte da vez é da... VESPA. Sim, um membro dos Vingadores Originais. Oh, que grande perda, qual vai ser conseqüência mesmo. Merda nenhuma, é claro. Mas ela estava lá nos primórdios da Marvel, é querida pelos ubernerds, e Bendis a matou porque queria que uma morte fosse “sentida”. Pra variar, uma morte besta, que não contribuiu em nada pra história, não foi heróica, não foi trágica, nada, apenas ela morreu, porque alguém tinha que morrer, porque o manual do mega-evento pede uma morte. Bendis é o pior autor de mortes que já vi nos gibis de super-heróis. Vide Avengers Disassembled. Nenhuma das mortes que ele descreve são memoráveis, contribuem em algo pro desenvolvimento da trama, nada. Apenas são mortes, como os autores ruins de HQs faziam nos anos 90. E pensar que já deram dois prêmios Eisner de “melhor escritor” pra esse cara.

AH, O RESTO TÁ TUDO VIVO – Os skrulls, como bons camaradas, tinham “guardado” todo o resto do pessoal que tinham substituído. Por que? Ora, parece que eles precisavam deles vivos pra “duplicação”. O que novamente não faz nenhuma porra de sentido, se avaliarmos a ciência genética deles. E eles não precisaram do Capitão Marvel vivo pra fazer um tão perfeito que até mesmo não quis mais voltar a ser Skrull. Pra não mencionar aquele “Capitão América” na Terra Selvagem, eles não precisaram de um Steve Rogers pra fazer um.

E A CONTINUIDADE QUE SE DANE – A última vez que vimos Raio Negro ele estava preso e Maximus tinha dado um golpe de estado. Bendis simplesmente não lê as outras revistas da Marvel – num total desrespeito com seus colegas – e pior, os editores dão anuência pra ele desfazer o trabalho alheio. Uma verdadeira banana pros outros escritores – Peter David, aliás, já reclamou disso, em relação a outro sujeito com carta branca pra ignorar a continuidade, Jeph Loeb. As grandes estrelas tudo podem na Marvel de Joe Quesada. Depois os escritores menos badalados que dêem um jeito de arrumarem a bagunça. Por exemplo, se Bendis tivesse lido Aniquilação, saberia que há anos o Império Skrull não é mais um império, mas está em guerra civil. Diacho, isso foi citado em outras séries também, como Jovens Vingadores e Fugitivos. Então a tal imperatriz é no máximo de uma facção skrull, seria bom lembrar. Quando a série ta pela metade, alguém deve ter dito algo ao Bendis, porque ele lembrou do massacre durante a Aniquilação, e que os Skrulls não tem mais planeta. Mas foi uma emenda, inicialmente dava pra perceber que ele ignorava completamente o que estava acontecendo no universo Marvel.

Se serve de consolo, pelo menos REINO SOMBRIO parece mais legal, é mais a cara do Bendis: é focada no relacionamento dos personagens, nos jogos de intriga, e não na ação. Cada um na sua praia. O autor tem seus momentos quando se foca em material mais "realista", nos diálogos, na ficção policial propriamente dita. Agora, quando o assunto é mais "épico", infelizmente ele se perde. Uma pena que a Marvel dê tamanha carta branca pra alguns escritores, em prejuízo de outros - como no caso acima citado da continuidade. E Joe Quesada já avisou que o próximo mega-evento deve ficar sob a batuta do Ed Brubacker, outro autor especializado mais em tramas de crime, do que em "épicos cósmicos" (seu trabalho em X-Men não é lá muito elogiado). Espero que seja então algo assim, mais "realista" e ligado ao crime, do que outra invasão ou algo do tipo. Provavelmente vai ser uma "Guerra", afinal é a Marvel, eheh.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Políticos e Pastores não querem que estudantes leiam Will Eisner!


É impressionante como os políticos conseguem transformar tudo em briga político-eleitoral. A mais recente vítima é o Will Eisner. Sim, o grande Will Eisner, aquele mesmo considerado o maior quadrinhista norte-americano, o cara que começou a transformar histórias em quadrinhos em "coisa de intelectual também", lá nos anos 70. Com o livro "Um Contrato com Deus", Eisner criou o termo "graphic novel" (novela gráfica) para designar os quadrinhos também como coisa séria, material tão capaz e inteligente quanto qualquer livro.

Pois bem, segundo certos políticos do Paraná e de São Paulo, Um Contrato com Deus, obra que inclusive consta nos programas de leitura de muitas escolas norte-americanas, não é apropriado para os adolescentes brasileiros, porque tem cenas de sexo e violência (sexo adultero, gostam de frisar alguns).

Quem leu o livro sabe que as "cenas" não são explicitas, são até mais recatadas do que aparece em muita telenovela na sessão da tarde por aí (alguém falou em Senhora do Destino?), e esses quadrinhos são menos picantes do que livros desde sempre recomendados pelas professorinhas, como "O Cortiço", ou menos sugestivos do que "O Guarani", e menos violento do que "Os Três Mosqueteiros" ou mesmo um Harry Potter, pra citar um classico infanto-juvenil moderno.

A questão é que os politiqueiros de plantão tem que enxergar chifre em cabeça de burro pra transformarem em palanque pras suas eternas batalhas pelo poder.

No caso, o Ministério da Educação durante o Governo Lula vem promovendo as histórias em quadrinhos, valorizando essa forma de expressão como aliado no incentivo a prática da leitura. Desde 2007, dez HQs vem sendo indicadas, todos os anos, para distribuição nas Bibliotecas Públicas e Escolares de todo país.

Pois na falta de coisa melhor pra criticar (como se não existissem outros problemas no nosso país) gente como o vereador do PSDB, Jair Brugnago, de União da Vitória, no Paraná, solicitou que "Um Contrato com Deus" fosse retirado das Bibliotecas Públicas. O que me leva a pergunta: Se ele acha o livro inapropriado pra crianças, porque os bibliotecários não fazem o controle? Só criança frequenta a biblioteca? Os "adultos" não tem o direito de escolher o que vão ler? Brugnago não parou por aí e pediu pra tirar de lá também os livros do Dalton Trevisan.

Além dos políticos demo-tucanos que posam de "educadores", se alia a questão parte da mídia, macomunada com os mesmos interesses político-eleitorais: No jornal Agora e no telejornal SPTV falaram que o livro de Eisner era "problemático". Ou seja, é HQ então é subleitura, é lixo cultural, ou mesmo "coisa do demo" como estão dizendo por aí os blogs evangélicos.

Porque Um Contrato com Deus, escrito pelo judeu Will Eisner, é uma interesssante fábula do confronto do humano com os desígnios divinos, e faz pensar sobre a natureza da fé. E fazer pensar é o que muito político reacionário e pastor de esquina não quer, evidentemente.

E é por exemplo como estes que eu não posso aceitar que esses caras voltem a governar o país.

Fim do diploma de jornalismo, negativo e positivo


Pra quem pagou mais de 30 mil reais numa faculdade de jornalismo, o fim da obrigatoriedade do diploma para a prática do jornalismo parece uma palhaçada. Mas, como tudo tem "dois lados da moeda", estou num exercício de alencar prós e contras a idéia.

Em primeiro lugar, lembrando que nos EUA, que por acaso, é um país "modelo" para as empresas de comunicação daqui, e muito da sua prática jornalística é aplicada aqui no Brasil, o diploma não é exigido. Mas as empresas de comunicação preferem sim contratar quem saiu de uma faculdade de comunicação, afinal é melhor você contratar alguém treinado do que treinar alguém, right?

Também, assim como no Brasil, muito dos maiores profissionais da área, principalmente veteranos, não são formados em comunicação. O que leva a pergunta: porque a turma do diploma não consegue se destacar tanto quanto esses caras? Bom, o compositor Zero Quatro fez uma música ironizando a Ordem dos Músicos do Brasil, mas desanca os diplomas em geral (Lembrando que ele próprio é formado e diplomado em comunicação social): "Quem precisa de ordem pra cantar? Quem precisa de ordem pra escrever? Quem precisa de ordem pra criar? Quem precisa de ordem pra dizer?" E no final da música cita grandes músicos "semi-analfabetos" que colocam no chinelo muito musico de academia por aí.

Escrever tem a ver com talento, e a prática jornalística também tem algo a ver com talento. Muita gente sai formada das faculdades de comunicação, e nem ao menos pratica a profissão, principalmente por falta do dito talento; Não apenas a questão de escrever bem, mas também pescar fontes, captar dicas, intuir novidades. Isso a faculdade não ensina, eu próprio aprendi na prática o que os professores não conseguiam repassar. Na verdade, a faculdade de jornalismo é muito boa justamente para aqueles que tem talento, porque você pode pegar aquele conhecimento teórico e transformá-lo num aliado. Mas pra quem não tem talento pro negócio, pode fazer cinquenta pós-graduações que sempre será um "jornalista de merda" como dizia o meu primeiro chefe (formado em Geografia, aliás).

Bom, vamos ao exercício em questão. Começando pelo lado negativo de não se pedir o diploma:

- ACHATAMENTO DOS SALÁRIOS: Abrindo a porteira, pode ser que seja desvalorizada a profissão, de forma que leve a uma redução do já paupérimo piso salarial padrão de um jornalista;

- EXCESSO DE MÃO DE OBRA: uma das causas do achatamento salarial é justamente o aumento da mão de obra, afinal, quanto mais oferta, mais baixo o salário. Fora o aumento do poder dos donos das empresas de comunicação, afinal se você não quer trabalhar nestas condições, bom, lá fora tá cheio de gente que quer o seu lugar. Cai o poder do jornalista, cresce o poder da empresa.

- VULGARIZAÇÃO DO JORNALISMO: o fim das técnicas classicas de redação, todas essas escolas obviamente tinham um objetivo. A turma do direito as vezes exagera na empolação, a turma das ciencias humanas é pedagógica demais, etc. Tem vários truques para os quais as aulas de redação da faculdade realmente são uteís. Escrever uma matéria jornalística não é simplesmente escrever qualquer coisa bem. Existem métodos e recursos, de forma a conseguir a melhor comunicação entre emissor/receptor;

- FALTA DE PROFISSIONALISMO: Parte do ensino técnico de jornalismo é justamente se enxergar como um veículo de informação, não como um formador de opinião. O jornalismo moderno prima pela isenção. Quando "as pessoas comuns" costumam exercer a profissão, em geral caem na armadilha de formarem juízos de valor em plena matéria. A faculdade deixa claro que o espaço disso são para as páginas e colunas de opinião. Jornalismo não é o exercício da fofoca bem escrita, nem pode ser palanque. A turma formada em direito ou nas licenciaturas comete muito esse erro quando escreve.

- MAIS BANDALHEIRA: Na faculdade são ensinados principios juridicos da prática do jornalismo, além da questão ética e moral. Ok, muita gente formada não pratica isso (e justamente é culpa destes que ninguém, fora os formados, esteja defendendo o diploma), mas da mesma forma muitos juristas, médicos, professores, arquitetos, etc, não praticam os principios éticos repassados nas suas faculdades. Ou seja, gente ruim tem em tudo que é lugar. Mas a questão é que pelo menos o pessoal das faculdades teve oportunidade de ter noção sobre as questões legais do poder que tem em mãos. O Ministério da Justiça simplesmente liberou o acesso às armas.

- DESVALORIZAÇÃO DA FIGURA DO JORNALISTA: Já senti falta de respeito pela profissão, muitas vezes associada ao baixo ordenado. O Brasil é o país da discriminação social: a verdadeira discriminação que existe aqui é quanto dinheiro você tem. Se você tem dinheiro pode ser negro, bicha, indio, mulher, o que quiser. Se você não tem dinheiro, não adianta ser alemão de olhos azuis, quem vive em Santa Catarina sabe dessas coisas. Pois agora, se jornalista já não era tratado por muito respeito por políticos, juízes e advogados, imagina agora que "qualquer um" pode ser jornalista. Nem o tal "respeito acadêmico" o dito terá. Pros arrogantes de plantão, tratar mal jornalista será um prato cheio.


Agora, o que a turma diplomada menos quer ouvir - afinal farinha pouca meu pirão primeiro - o lado positivo:

- FIM DAS FACULDADES PICARETAS: A grande verdade é que a maioria da sociedade tá cagando e andando pros jornalistas formados porque, como exposto, muitos dos melhores nem são formados; Daí que a turma do diploma está devendo. E está devendo em parte por causa da péssima formação universitária de faculdades fast-food que só abriram o curso de jornalismo justamente pra distribuir diploma. Tá cheio de gente com diploma por aí que não se justifica. Justamente na área do direito, lembro da minha experiencia no judiciário, onde já vi juiz perdendo a paciência com repórter, pela burrice da mesma. E o que ela tinha? Um diploma de jornalismo. Adivinha a opinião desse juiz sobre o assunto se eu fosse perguntar?

- PROMOÇÃO DAS BOAS FACULDADES - Você não precisa ser formado em Cinema pra ser um cineasta, mas ajuda; Como disse acima, nos EUA preferem contratar o pessoal formado em faculdades de comunicação. Então, gente que vem de BOAS FACULDADES terá boas referencias, principalmente pra conseguir o primeiro emprego. A partir daí vai ser provar a sua competência, jacaré.

- VALORIZAÇÃO DOS BONS PROFISSIONAIS: É isso jornalistas. Diplomados ou não terão que suar. O diploma não será mais o argumento porque deve ser contratado, e sim a prática, acima de tudo. A faculdade vai ajudar quem quer fazer disso a sua vida, e não só um bico. Mas a profissão não vai se resumir a um pedaço de papel.

- FIM DA PICARETAGEM DOS JORNALISTAS SÓ NO DIPLOMA: Tem gente que não exerce a profissão, mas tirou o seu registro de jornalista graças a faculdade. E sabem o que eles fazem? VENDEM a assinatura de jornalista pra jornais, principalmente pequenos, como forma de subsistência. Ás vezes nem se dão ao trabalho de acompanhar os veiculos que estão assinando. Conheço várias associações e entidades que deixaram de lançar o seu jornalzinho porque não conheciam alguém que o assinasse, ou quando o conheciam, a pessoa queria cobrar, e isso era um investimento muito caro, principalmente pras associações de periferia.

- DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO: Vai ter menos pepino jurídico pra várias entidades e associações soltarem os seus informativos sem a assinatura do dito 'jornalista responsavel", ou mesmo conseguirem um, mais barato, afinal a demanda cresceu. "Ah, mas eles não vão contratar jornalistas, buá..." Sinto muito informar, mas a constituição garante liberdade de expressão. Estou cansado de ouvir gente "bem intencionada" de classe média vim falar de comunicação comunitária, de jornal comunitário, radio comunitária, mas não deixa o povo falar na radio, não deixa o povo escrever pro jornal... Porque a comunicação comunitária não é o jornalista de classe média catequizando o povo, e sim o povo também fazendo a própria comunicação. Precisamos de mais jornalistas das camadas populares, muitos deles as vezes sem condições de conseguir o diploma universitário. Precisamos da volta dos Machados de Assis ao jornalismo (Machado de Assis: garoto pobre, mulato, sem formação universitária, grande jornalista do século XIX) e dos Lima Barreto também (igualmente mulato, pobre e sem formação, um grande jornalista brasileiro).

- FIM DA POLEMICA DO ESTÁGIO - Muitos sindicatos não gostavam da contratação de estagiários porque há empresas de comunicação que dessa forma deixam de contratar profissionais porque preferem a mão de obra barata dos estudantes. Dessa forma os estágios não eram reconhecidos pelas faculdades. O estágio nas empresas de jornalismo pode ficar mais fácil de entrar nas grades curriculares de algumas faculdades de comunicaçaõ que ainda não tiveram peito para tanto, bem como outros veiculos de comunicação abrirem vaga neste sentido, já que as tinham fechado devido a negociações com o sindicato. Agora que não precisa mais do diploma, muitos jovens talentosos poderão ter aí a sua primeira chance de mostrarem ao que vieram, no que isso tem de bom, e de ruim.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Vendas dos grandes jornais continua a cair

Os últimos dados sobre a circulação média de jornais divulgados pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) para o mês de abril, e o tipo de jornalismo que continua sendo praticado pelos principais jornalões brasileiros, trouxeram à memória uma música de Paul Simon, muito popular nos anos 1970. Lançada em 1973, mesmo ano das audiências do caso Watergate no Congresso dos EUA, o refrão de Loves me like a rock ("gosta de mim tanto quanto um rock") repetia: "who do you think you´re fooling?" (quem você pensa que está enganando?)

Dados do IVC revelam que a Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo perderam, respectivamente, 10,84%, 7,75% e 16,93% de circulação média diária em abril de 2009, se comparada aos números de abril de 2008. Nenhum deles atinge a circulação de 300 mil exemplares diários. Os números arredondados são, respectivamente, 289 mil, 259 mil e 214 mil exemplares.

Excelente matéria analítica desde fenômeno no site Novaes, a melhor forma de ficar bem informado sem ser enganado. Clique aqui.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Homem-Aranha: Novas Formas de Morrer


Muitos fãs antigos do Homem-Aranha deixaram de ler a revista em protesto contra o reset na cronologia, dado no começo de 2008. Eu pensei seriamente em fazê-lo. Mas então lembrei que eu mesmo só comecei a ler as histórias do Superman porque fizeram isso com o personagem em 1987: era a desculpa perfeita. Não que eu apóie o reset, nem o ache necessário. Tenho plena convicção que sim, poderia ter sido dado o ritmo dos gibis atuais sem apagar a cronologia, da mesma forma que hoje em dia a reformulação do Superman não significa mais nada e ele voltou a Era de Prata – com grande qualidade, aliás.

Mas ao invés de ser marrento com uma decisão editorial fácil, preguiçosa e execrável, resolvi dar uma chance ao pessoal que assumiu a bomba logo após a saída do editor Axel Alonso e do escritor JM Straczynski. E não me arrependi. O Homem-Aranha voltou a boa forma, ao personagem clássico que todo mundo aprendeu a amar, o que não significa que as coisas estão sempre nas mesmas. J. Jonah Jameson não manda mais no Clarim, nem Peter trabalha lá, e o Duende Verde não sabe a sua identidade.

Assim chegamos ao encadernado “New Ways to Die” (Novas Formas de Morrer) que reúne as edições 568 a 673 da revista Amazing SpiderMan, a primeira história longa do Aranha desde o início da série “Brand New Day” (no Brasil, “Novíssimo Dia”). A história marca a volta de John Romita Jr. a revista, o preferido dos fãs, e provavelmente o sujeito que mais desenhou histórias aracnídeas até hoje – não sei se está contabilizado, mas deve ser um verdadeiro recorde!

Romita Jr. volta num momento especial – como não deveria deixar de ser – que é a volta de Norman Osborn as histórias do Homem-Aranha. Norman pra quem não sabe é o Duende Verde, o mais mortífero inimigo do herói, justamente porque ele esta envolvido pessoalmente com Peter Parker, devido ao fato dele ser o melhor amigo de Harry Osborn, filho do vilão.

Osborn é louco e ao mesmo tempo um gênio, vilão do mesmo naipe de um Lex Luthor – e inclusive com a mesma ambição de um dia ser presidente dos Estados Unidos. Agora, comandando uma equipe de vilões a serviço do governo federal, os Thunderbolts, Norman está de volta a cidade para capturar o principal herói fora da lei não registrado da Marvel, justamente o Homem-Aranha.

O arco é crucial porque joga no mesmo caldeirão não apenas o Duende Verde original, mas também novos vilões como o Ameaça, cuja identidade continua um mistério, a volta do Venon, que muitos já consideraram o maior inimigo do herói, e a volta de Eddie Brock, o Venon original, agora como o Anti-Venon. O escritor Dan Slott coloca perigo de todos os lados, mas sem exagerar no drama, fazendo da aventura uma boa diversão para uma tarde tediosa.

Problemas no desenvolvimento da história é claro que existem, mas não por culpa do autor. A merda do “reset mágico” da continuidade, onde todos esqueceram a identidade do Homem-Aranha, continua tendo suas conseqüências. Por exemplo, por que Venon consegue localizar Eddie Brock por ele já ter sido hospedeiro, e não Peter Parker? Uma vez que o próprio Anti-Venon mais tarde mostra que Peter continua com vestígios que já foi hospedeiro, não há por que McGargan não ter reconhecido Parker quando se encararam, logo no primeiro capítulo. Afinal ele não precisava saber que Peter era o Homem-Aranha, só de sentir os traços do simbionte nele seria suficiente, e está claro que eles não foram apagados logicamente...

A “burrice” de Norman quando encontra a câmera de Peter também é difícil de engolir. Uma vez que o Homem-Aranha tira suas próprias fotos, porque Norman acha que Parker é apenas um laranja, e não o próprio herói, já que não pode tirar as suas fotos, bolou aquele meio de tirá-las automaticamente?

Excetuando essas incongruências, o resto até corre bem, na boa e velha tradição de um gibi de super-herói: algumas coisas são reveladas, outras não, continuando o mistério que nos levará as próximas edições. A relação Norman/Harry Osborn ficou esclarecida, bem como o que ele sabe de Peter Parker. O fotógrafo, aliás, conseguiu finalmente outro emprego,que faz muito sentido ao lado de Ben Urich, agora no comando do jornal Linha de Frente.

“Novas Formas de Morrer” mostra que quando um personagem é bom, é impossível acabar com ele, por mais que o chefão da Marvel, Joe Quesada, se esforce, aparentemente neste sentido. Enquanto houver autores apaixonados pelo Aranha, como Dan Slott e John Romita Jr. Peter Parker tem uma longa carreira pela frente. Leia e confira.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Homem de Ferro: merece o Eisner?


Quando saiu a lista dos indicados para o prêmio Eisner - o oscar dos quadrinhos - a presença do novo gibi do Homem de Ferro entre "as melhores novas séries" me chamou a atenção. Chamou porque Matt Fraction - o escritor da revista - é o mesmo sujeito responsável por aquele lixo tóxico que é a revista Justiceiro: Diário de Guerra (que vendeu tão mal que foi cancelada). Certo, é o Matt Fraction que co-escreveu a excelente "Punho de Ferro", mas qual é, seu parceiro é o duas vezes premiado Ed Brubacker, e entre ele e Fraction, quem duvidaria de onde as boas idéias vem?

No entanto "Invencible Iron Man" está inteiramente sob a batuta de Matt, para o bem e para o mal. Então resolvi ler o primeiro arco "The Five Nightmares" (os cinco pesadelos) que envolvem os números 01 ao 07 da nova revista, para tirar a prova. Aqui no Brasil este material parece que vai começar a sair mês que vem na revista "Avante Vingadores". Eu que não gosto de ler a prestação, li tudo numa taquarada só no encadernado que reúne todas as revistas num único livro, lançado pela Marvel há pouco mais de dois meses.

Cheguei a conclusão: vale a pena, cumpre o papel de entreter o leitor - que é fundamentalmente a função de um gibi de super-herói. É uma boa história, e vale o dinheiro gasto. Mas não, não acho que merecia estar entre os cinco melhores novos gibis de 2008. Temo que o apelido de "oscar dos quadrinhos" possa estar realmente corrompendo o Eisner Awards. Por que acho que essa indicação provavelmente cheira a politicagem, de ter pelo menos um gibi da Marvel - a editora mais popular, a que mais vende nos EUA - na lista dos cinco. Só pode. Mas se fosse pra ser assim - indicar um gibi da Marvel pra preencher "a cota" - então que indicassem Kick-Ass, de Mark Millar & John Romitar Jr. Não sei o que a turma do Eisner Awards tem contra o Mark Millar, mas mais uma vez ele é ignorado, e olha que ele produziu muito e com qualidade em 2008.

Mas se você está interessado em ler a nova revista do Homem de Ferro, vamos aos detalhes (sem entregar a história): Quando eu li que a premissa era colocar Tony Stark, simbolo do capitalismo patenteado, contra a tecnologia do software livre, representado pelo mais novo arqui-inimigo do latinha, Zeke Stane, filho de Obediah Stane (aquele mesmo que teve a honra de ser o vilão escolhido para o filme), fiquei preocupado que fosse uma história rasa para atacar a liberdade do uso e divulgação do conhecimento científico, que eu tanto prezo através da promoção de mais tecnologias de código aberto.

Felizmente não foi nenhuma propaganda reacionária de Mr. Fraction. Ele apenas teve a grande sacada de construir um vilão realmente perigoso para Tony Stark suar um pouco a camisa, já que a Marvel o fez cada vez mais poderoso com o passar dos anos. Zeke Stane adota a filosofia do código aberto para poder produzir armamento mais barato e tão eficiente quanto o material de Tony Stark. Que Zeke seja um psicopata terrorista nada tem a ver com o fato dele se utilizar das novas filosofias tecnologicas e o gibi nunca insinua isso.

Em suma, Fraction quer mesmo contar uma boa aventura, com doses de drama suficiente pra nos preocuparmos com um herói que sempre sabemos que vai dar um jeito de vencer no final. É a trabalheira pra vencer o vilão da vez que encanta o fã desse tipo de histórias em quadrinhos. O final de cada capítulo tem ótimos ganchos, como uma boa série de TV, nos remetendo a comprar a próxima edição, obviamente.

Um aparte fica para a arte de Salvador Larroca, um desenhista que nunca gostei muito, mas tem seus fãs. Admito que ele continua fora da minha lista de "vinte melhores" ou até mesmo "vinte e cinco melhores", mas o design da revista parece combinar com o clima tecnológico/conservador que um gibi do Homem de Ferro tem que ter. As cores de Frank D'armata tem grande contribuição na constituição da direção de arte, ainda mais se lembrarmos que Larroca faz a arte final à lapiz, ele não usa nanquim, cabendo ao colorista pintar direto em cima.

Claro que Matt Fraction está longe de ser um escritor completo, ou que por outra razão eu disse antes que não colocaria Invencible Iron Man entre as cinco melhores novas revistas de 2008? Zeke Stane pode se tornar um novo bom e grande arqui-inimigo para o Latinha, mas acho que faltou profundidade nas suas motivações, algo melhor do que o velho "Você matou o meu papai - que a propósito eu nem gostava muito - e agora eu vou me vingar". O discurso também pseudo-revolucionário do personagem destoa da sua despolitização, afinal ele próprio tira sarro dos ideais dos terroristas a quem e empresta sua tecnologia no segundo episódio, para depois no final descarregar aqueles xingamentos esquerdinhas de "imperialista" para Tony Stark na sexta edição? A própria menção de Stark como um Senhor-da-Guerra não destoa em nada do que Zeke estava fazendo. Não enxergar os próprios erros nos métodos é condizente com muitos terroristas modernos, mas Zeke não é um pregador político.

O problema talvez seja que Fraction é americano - que é um povinho despolitizado pra caramba. Os ingleses Warren Ellis e Mark Millar, por exemplo, já escreveram sobre super-vilões terroristas antes, e os fizeram com maestria, entendendo perfeitamente as motivações políticas destes - e suas naturais hipocrisias. Mas daí cabe o conselho do próprio Millar, que o escritor de quadrinhos deve ler menos gibi, e passar mais tempo no mundo real também.

Domingo, Junho 14, 2009

Se o Obama fosse brasileiro...

Uma das coisas que me chama a atenção nos comentários que leio aqui e ali, principalmente no orkut, é a mania do brasileiro, principalmente de classe média, de adorar coisas lá fora que odiaria aqui dentro. Tipo, Michael Moore. Eu adoro Michael Moore. Mas muitos dos que aqui gostam do sujeito, não sei se gostam pelos motivos errados ou realmente não entendem as opiniões do cara, de forma que se houvesse um Michael Moore brasileiro, tenho certeza que o odiariam.
Mas o caso mais explícito é o Obama. De repente ele virou o político ideal. Claro, quem me conhece sabe que eu preferia o Obama a Hilary Clinton desde sempre - até pelo fato dele ser mais a esquerda que os Clintons. Mas justamente pelas qualidades do Obama - não esquecendo que como todo mundo ele carrega defeitos, e não fecho meus olhos para estes - muita gente que aqui no Brasil o admira, se ele fosse nosso presidente, o odiaria, como odeia o Lula, aliás. Querem provas? Vamos as razões:

OBAMA É DE ESQUERDA - Ok, ok, os democratas são tão de esquerda, quanto... quanto o PT. O PT faz tempo que deixou de ser socialista, sendo um partido "social-democrata de esquerda". Até porque o partido social democrata de direita, o PSDB, não é social-democrata porra nenhuma, mas neoliberal até a raiz da alma. O PSDB está para o Partido Republicano como o PT está para o partido Democrata americano. PSDB e Republicanos defendem menos intervenção na economia, livre comércio, redução de impostos com consequente corte de beneficios sociais aos mais pobres, incentivam a privatização da saúde, da educação e todo e qualquer serviço público. Democratas e petistas defedem presença do estado na economia, ainda que tímida, forte política de promoção social - o que significa precisar de recursos e consequentemente, impostos - estatização dos serviços públicos. Republicanos posam de moralistas, apesar de seus escandalos, tucanos idem. E os democratas, tais como os petistas, também tem o seu numero de esqueletos nos armarios, afinal comparado ao governo Clinton, o governo Lula até que é uma calmaria quando o assunto é meter o pé na Jaca.

OBAMA É "RADICAL" - O Obama é tão radical quanto... quanto o Lula, que é um dos moderados do PT. Assim como o PT tá cheio de tendencias, os Democratas também tem suas divisões ideologicas, ainda mais num partido tão grande quanto, e aquele sistema medonho de dois partidos que os norte-americanos chamam de democracia. Obama estava à esquerda de Hilary Clinton, e o discurso dos Clintos inclusive era que Obama seria a derrota certa para os democratas, porque representaria "a ala mais radical".

OBAMA É NEGRO - O comentário mais depreciativo que existe contra o Lula aqui no Brasil é que ele é "nordestino". Quando alguém quer destratá-lo a palavra NORDESTINO sempre aparece. Como se "nordestino" fosse uma sub-raça ou algo do gênero. Como intolerante tem em tudo que é lugar, pode se imaginar os mais extremistas de direita chamando o Obama de negão. Até pelo numero de movimentos racistas que tem lá. Felizmente eles são minoria, tal como aqui no Brasil.

OBAMA VEM DE BAIXO - A vitória de Obama é muito parecida com que a vitória do Lula representou para o Brasil. A vitória do Obama confirma os EUA como democracia, onde qualquer um pode realmente chegar a presidencia da republica, independente da sua etnica, credo ou classe social. Aqui no Brasil, muita gente da classe média não engoliu a vitória do ex-operário sem diploma, como se ele estivesse num lugar que "não lhe pertencesse". Pessoas assim também existem nos EUA, mas felizmente são uma minoria.

AÇÃO PRAGMATICA - Obama fala em governo para todos, mas libera a grana quando foi pra socorrer os grandes grupos economicos no auge da crise. Lula fala em priorizar os pobres, mas ajuda os bancos diante da hecatombe economica. Em comum está uma visão pragmática de saber que não se trata de socorrer meia duzia de milionários privilegiados, mas que a bancarrota destes traria um efeito dominó na economia cuja maior vítima são sempre os mais pobres, já que esses não tem uma poupancinha de dez milhões de aposentadoria garantida.

DISCURSO POPULAR - Obama cita filmes, futebol e até histórias em quadrinhos nos seus discursos. Ele sabe que o americano médio vive todo o seu tempo livro no mundo do entretenimento. Ele busca comparações que as pessoas entendam. Lula, presidente de uma nação de semi-analfabetos fala a lingua do povo, e daí consegue uma simpatia que não era vista desde os tempos de Getúlio Vargas.

OBAMA É MUDANÇA - Obama é mudança, ainda que tímida. Não será uma revolução, serão pequenas mudanças dentro do modo como são feitas as coisas no governo dos EUA. Da mesma forma, Lula não fez um governo "revolucionário" (e foi a decepção de muita gente de esquerda, inclusive), mas de mudanças pontuais que fizeram toda a diferença. O que mostra o conservadorismo e preconceito da nossa classe média, porque se nem as pequenas mudanças de Lula são encaradas, imagina se ele fosse mesmo de esquerda. Da mesma forma, as mudanças de Obama suscitam o mesmo tipo de revolta num setor do povo norte-americano que é igualmente reacionário, preconceituoso e tem medo do futuro. Não é a toa que Obama citou o Lula num dos seus discursos, ao dizer que com sua vitória "A Esperança venceu o medo". O Lula deveria cobrar direitos autorais, eheh.

OBAMA NÃO É PERFEITO - Assim como o Lula também não é. O governo Lula tem um bocado de problemas, mas conquistou popularidade através dos resultados. Obama ainda vive na "lua de mel" com o mundo, e nos deve os resultados, os quais eu espero que ele apresente. Mesmo assim conhecendo o modo como a política norte-americana funciona - num congresso movido a lobbys empresariais de forma até mais feroz do que acontece no nosso - a parada é dura pro presidente preferido dos nerds do mundo inteiro. Ele vai esbarrar na legislação, nos lobbys, e quando começar a fazer alguma diferença, a própria mídia que vai jogar contra ele, como jogaram contra o Lula quando a lua de mel acabou. E pra completar o Partido Democrata é tão problemático quanto o PT, como é toda estrutura organizacional que tem milhares de pessoas, todo tipo de pessoas, e entre eles o tipo de pessoa que apronta safadezas capazes de envergonhar os seus amigos. Parafraseando o Warren Ellis, o problema das revoluções são as pessoas. As revolução são justas, necessárias e perfeitas. Mas as pessoas são mesquinhas e imperfeitas, e sempre põem tudo a perder.

O passado bate na porta

Engraçada a história dos papéis velhos. É como dinheiro esquecido no bolso do casaco, aparece quando a gente menos percebe. Meus pais tem uma escrivaninha, que hoje descansa na garagem. Isso mesmo, descansa, como se estivesse aposentada ou enterrada. Pois ela ainda está cheia de papéis... Sabe-se de quantos anos atrás!
Foi o que descobri dia desses, uma pasta inteira de minhas primeiras folhas datilogradas, na minha primeira e portátil máquina de escrever - Aliás, o que aconteceu com essa máquina? Eu realmente não lembro! Entre trabalhos escolares e poemas tenebrosos, algumas letras de música que até lembrei a melodia. O que me fez lembrar que o rock é mesmo coisa de adolescente. São letras simplórias e bobas, mas acho que são as coisas mais sinceras que já escrevi. Numa época que eu não sabia que literatura era como se dizia, e não o que se dizia, e eu achava que tinha que simplesmente falar o que pensava que já estava de bom tamanho. Nem fazia idéia do era a tal metafora. Resolvi digitá-las pra "posteridade". Eis algumas:


LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Se prepare agora vou falar um palavrão
Por que às vezes não basta boa educação
Preciso dizer tudo que eu sinto
Pra poder fazer algum sentido
Se você não concorda
Não posso fazer nada
Agora é a minha vez
De ser o dono da parada
Filho da puta, filho da puta, filho da puta
Você não me censura
Eu tenho o direito
De te chamar filho da puta (2x)
É muito fácil falar de democracia
Difícil é praticar toda a utopia
Você se lambuza na teoria
Mas a gente vê a sua miopia
Todos os dias na sala de aula
Você se impõe e fala e fala
Mas não adiante essa sua farsa
A gente sabe que você é um mala!
Filho da puta, filho da puta, filho da puta
Você não me censura
Eu tenho o direito
De te chamar filho da puta (2x)
A sua mãe eu peço desculpas
Se por acaso ela não foi puta!
Mas o filho que tem não oculta
Que na hora de correr, ele foge da luta!
Filho da puta, filho da puta, filho da puta
Você não me censura
Eu tenho o direito
De te chamar filho da puta (2x)


DO JEITO QUE EU GOSTO

Todos os dias eu ligo a rádio
Procurando algum som pra me divertir
Todas as noites eu acendo a TV
Procurando um bom show pra sacudir
Mas o que aparece
Nada que preste
Só uns cornos gemendo
Eu vou explodir!
Eu gosto de rock,
Eu gosto do choque,
Eu gosto de música,
Não dessa merda que você escuta. (2x)
Mudo a Am, mudo a FM
Mas é sempre o mesmo ire-laiê
Só porque toca na novela
Todo mundo mela
E quer um pedaço
Do novo ye-ye-ye
Eu gosto de rock,
Eu gosto do choque,
Eu gosto de música,
Não dessa merda que você escuta. (2x)
Pode ser que eu seja ultrapassado...
Se bom gosto for um pecado...
Mas acontece que eu não me vendo fácil
Nem vou me perder por um rebolado
Eu gosto de rock,
Eu gosto do choque,
Eu gosto de música,
Não dessa merda que você escuta. (2x)

INVISIVEL

Ela me olha como quem não me vê
E eu me sinto como se estivesse na TV
Num desses seriados antigos
Em que o mocinho fica sentindo
Algo pela mocinha, se sacudindo
Tentando esconder...
E você nem me vê
E você nem me vê
Mas eu presto atenção em você.
Vou pedir pra alguma poesia
Me ensinar como te vencer;
Vou chorar uma melodia
Até que possa, convencer.
Mas você, nem prestar atenção,
Pra minha canção;
Mas você, nem virar de lado
Pra me ver, bem-encarado
O melhor partido deste estado
Voce vai deixar perder...
Ela me olha como quem não me vê
E eu me sinto como fosse me perder
Ela me olha como quem não me vê
E eu me sinto como fosse me perder
Bate o sino, e eu, pequenino,
Vou bem menino, conversar pra te entreter
E agora, já são dez horas
E eu lá fora, sei que não vou te ter
O mundo vai embora
E eu lá fora, só me resta...
Masturbar você...
Yeah, Yeah, Yeah, Yeah....
Masturbar você...
Yeah, Yeah, Yeah, Yeah....
Masturbar você...
Yeah, Yeah, Yeah, Yeah....
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você,
Masturbar você, yeah, yeah, yeah, yeah...