
Pra quem pagou mais de 30 mil reais numa faculdade de jornalismo, o fim da obrigatoriedade do diploma para a prática do jornalismo parece uma palhaçada. Mas, como tudo tem "dois lados da moeda", estou num exercício de alencar prós e contras a idéia.
Em primeiro lugar, lembrando que nos EUA, que por acaso, é um país "modelo" para as empresas de comunicação daqui, e muito da sua prática jornalística é aplicada aqui no Brasil, o diploma não é exigido. Mas as empresas de comunicação preferem sim contratar quem saiu de uma faculdade de comunicação, afinal é melhor você contratar alguém treinado do que treinar alguém, right?
Também, assim como no Brasil, muito dos maiores profissionais da área, principalmente veteranos, não são formados em comunicação. O que leva a pergunta: porque a turma do diploma não consegue se destacar tanto quanto esses caras? Bom, o compositor Zero Quatro fez uma música ironizando a Ordem dos Músicos do Brasil, mas desanca os diplomas em geral (Lembrando que ele próprio é formado e diplomado em comunicação social): "Quem precisa de ordem pra cantar? Quem precisa de ordem pra escrever? Quem precisa de ordem pra criar? Quem precisa de ordem pra dizer?" E no final da música cita grandes músicos "semi-analfabetos" que colocam no chinelo muito musico de academia por aí.
Escrever tem a ver com talento, e a prática jornalística também tem algo a ver com talento. Muita gente sai formada das faculdades de comunicação, e nem ao menos pratica a profissão, principalmente por falta do dito talento; Não apenas a questão de escrever bem, mas também pescar fontes, captar dicas, intuir novidades. Isso a faculdade não ensina, eu próprio aprendi na prática o que os professores não conseguiam repassar. Na verdade, a faculdade de jornalismo é muito boa justamente para aqueles que tem talento, porque você pode pegar aquele conhecimento teórico e transformá-lo num aliado. Mas pra quem não tem talento pro negócio, pode fazer cinquenta pós-graduações que sempre será um "jornalista de merda" como dizia o meu primeiro chefe (formado em Geografia, aliás).
Bom, vamos ao exercício em questão.
Começando pelo lado negativo de não se pedir o diploma:- ACHATAMENTO DOS SALÁRIOS: Abrindo a porteira, pode ser que seja desvalorizada a profissão, de forma que leve a uma redução do já paupérimo piso salarial padrão de um jornalista;
- EXCESSO DE MÃO DE OBRA: uma das causas do achatamento salarial é justamente o aumento da mão de obra, afinal, quanto mais oferta, mais baixo o salário. Fora o aumento do poder dos donos das empresas de comunicação, afinal se você não quer trabalhar nestas condições, bom, lá fora tá cheio de gente que quer o seu lugar. Cai o poder do jornalista, cresce o poder da empresa.
- VULGARIZAÇÃO DO JORNALISMO: o fim das técnicas classicas de redação, todas essas escolas obviamente tinham um objetivo. A turma do direito as vezes exagera na empolação, a turma das ciencias humanas é pedagógica demais, etc. Tem vários truques para os quais as aulas de redação da faculdade realmente são uteís. Escrever uma matéria jornalística não é simplesmente escrever qualquer coisa bem. Existem métodos e recursos, de forma a conseguir a melhor comunicação entre emissor/receptor;
- FALTA DE PROFISSIONALISMO: Parte do ensino técnico de jornalismo é justamente se enxergar como um veículo de informação, não como um formador de opinião. O jornalismo moderno prima pela isenção. Quando "as pessoas comuns" costumam exercer a profissão, em geral caem na armadilha de formarem juízos de valor em plena matéria. A faculdade deixa claro que o espaço disso são para as páginas e colunas de opinião. Jornalismo não é o exercício da fofoca bem escrita, nem pode ser palanque. A turma formada em direito ou nas licenciaturas comete muito esse erro quando escreve.
- MAIS BANDALHEIRA: Na faculdade são ensinados principios juridicos da prática do jornalismo, além da questão ética e moral. Ok, muita gente formada não pratica isso (e justamente é culpa destes que ninguém, fora os formados, esteja defendendo o diploma), mas da mesma forma muitos juristas, médicos, professores, arquitetos, etc, não praticam os principios éticos repassados nas suas faculdades. Ou seja, gente ruim tem em tudo que é lugar. Mas a questão é que pelo menos o pessoal das faculdades teve oportunidade de ter noção sobre as questões legais do poder que tem em mãos. O Ministério da Justiça simplesmente liberou o acesso às armas.
- DESVALORIZAÇÃO DA FIGURA DO JORNALISTA: Já senti falta de respeito pela profissão, muitas vezes associada ao baixo ordenado. O Brasil é o país da discriminação social: a verdadeira discriminação que existe aqui é quanto dinheiro você tem. Se você tem dinheiro pode ser negro, bicha, indio, mulher, o que quiser. Se você não tem dinheiro, não adianta ser alemão de olhos azuis, quem vive em Santa Catarina sabe dessas coisas. Pois agora, se jornalista já não era tratado por muito respeito por políticos, juízes e advogados, imagina agora que "qualquer um" pode ser jornalista. Nem o tal "respeito acadêmico" o dito terá. Pros arrogantes de plantão, tratar mal jornalista será um prato cheio.
Agora, o que a turma diplomada menos quer ouvir - afinal farinha pouca meu pirão primeiro -
o lado positivo:- FIM DAS FACULDADES PICARETAS: A grande verdade é que a maioria da sociedade tá cagando e andando pros jornalistas formados porque, como exposto, muitos dos melhores nem são formados; Daí que a turma do diploma está devendo. E está devendo em parte por causa da péssima formação universitária de faculdades fast-food que só abriram o curso de jornalismo justamente pra distribuir diploma. Tá cheio de gente com diploma por aí que não se justifica. Justamente na área do direito, lembro da minha experiencia no judiciário, onde já vi juiz perdendo a paciência com repórter, pela burrice da mesma. E o que ela tinha? Um diploma de jornalismo. Adivinha a opinião desse juiz sobre o assunto se eu fosse perguntar?
- PROMOÇÃO DAS BOAS FACULDADES - Você não precisa ser formado em Cinema pra ser um cineasta, mas ajuda; Como disse acima, nos EUA preferem contratar o pessoal formado em faculdades de comunicação. Então, gente que vem de BOAS FACULDADES terá boas referencias, principalmente pra conseguir o primeiro emprego. A partir daí vai ser provar a sua competência, jacaré.
- VALORIZAÇÃO DOS BONS PROFISSIONAIS: É isso jornalistas. Diplomados ou não terão que suar. O diploma não será mais o argumento porque deve ser contratado, e sim a prática, acima de tudo. A faculdade vai ajudar quem quer fazer disso a sua vida, e não só um bico. Mas a profissão não vai se resumir a um pedaço de papel.
- FIM DA PICARETAGEM DOS JORNALISTAS SÓ NO DIPLOMA: Tem gente que não exerce a profissão, mas tirou o seu registro de jornalista graças a faculdade. E sabem o que eles fazem? VENDEM a assinatura de jornalista pra jornais, principalmente pequenos, como forma de subsistência. Ás vezes nem se dão ao trabalho de acompanhar os veiculos que estão assinando. Conheço várias associações e entidades que deixaram de lançar o seu jornalzinho porque não conheciam alguém que o assinasse, ou quando o conheciam, a pessoa queria cobrar, e isso era um investimento muito caro, principalmente pras associações de periferia.
- DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO: Vai ter menos pepino jurídico pra várias entidades e associações soltarem os seus informativos sem a assinatura do dito 'jornalista responsavel", ou mesmo conseguirem um, mais barato, afinal a demanda cresceu. "Ah, mas eles não vão contratar jornalistas, buá..." Sinto muito informar, mas a constituição garante liberdade de expressão. Estou cansado de ouvir gente "bem intencionada" de classe média vim falar de comunicação comunitária, de jornal comunitário, radio comunitária, mas não deixa o povo falar na radio, não deixa o povo escrever pro jornal... Porque a comunicação comunitária não é o jornalista de classe média catequizando o povo, e sim o povo também fazendo a própria comunicação. Precisamos de mais jornalistas das camadas populares, muitos deles as vezes sem condições de conseguir o diploma universitário. Precisamos da volta dos Machados de Assis ao jornalismo (Machado de Assis: garoto pobre, mulato, sem formação universitária, grande jornalista do século XIX) e dos Lima Barreto também (igualmente mulato, pobre e sem formação, um grande jornalista brasileiro).
- FIM DA POLEMICA DO ESTÁGIO - Muitos sindicatos não gostavam da contratação de estagiários porque há empresas de comunicação que dessa forma deixam de contratar profissionais porque preferem a mão de obra barata dos estudantes. Dessa forma os estágios não eram reconhecidos pelas faculdades. O estágio nas empresas de jornalismo pode ficar mais fácil de entrar nas grades curriculares de algumas faculdades de comunicaçaõ que ainda não tiveram peito para tanto, bem como outros veiculos de comunicação abrirem vaga neste sentido, já que as tinham fechado devido a negociações com o sindicato. Agora que não precisa mais do diploma, muitos jovens talentosos poderão ter aí a sua primeira chance de mostrarem ao que vieram, no que isso tem de bom, e de ruim.